AS DESVANTAGENS DE SER ÓBVIO

Resoluções e mudanças para o fim de ano

Fiz terapia durante um ano, embora quisesse ter dinheiro suficiente para estar fazendo até hoje. E, no decorrer das sessões sempre trabalhávamos algo relacionado ao agora com instrumentos variados, como livros, desenhos, objetos. É uma linha da psicologia chamada Gestalt, que eu particularmente me identifico muito.

Em uma dessas sessões minha psicóloga me apresentou um livro de crônicas e pediu para que eu escolhesse uma delas aleatoriamente para ler e trabalharmos em cima. Comecei então a analisar os títulos no índice e esperava encontrar algo que me chamasse atenção. Percebi que havia uma crônica com o mesmo título do livro e é claro fiquei muito tentada a escolher essa. Porém, pensei de novo sobre minha necessidade em fazer coisas diferentes e escolhi outra, realmente de maneira aleatória.

A cara de espanto da minha psicóloga foi nítida. Ela pensou que eu escolheria a crônica que dava título ao livro e se assustou ao ver que eu tinha tomado um caminho diferente do habitual. Confesso, eu também estava assustada comigo mesma, porque o meu movimento natural era escolher o óbvio; meu caminho normal era traçar sempre as mesmas rotas, que desembocavam sempre nos mesmos destinos.

Naquele dia, sem querer, havia inaugurado um novo tempo para mim: o tempo da espontaneidade. Eu estava livre do peso que era ser óbvia. Era o início da descoberta que o novo pode chegar de qualquer lugar, sem grandes acontecimentos. O novo podia ser fruto de uma mudança simples de rotina, de um novo lado da calçada, de um refrigerante diferente para o lanche. Lembrei na hora de Clarice Lispector e sua ideia sobre mudar devagar, mudar nas pequenas coisas. E como esses pensamentos foram libertadores! Como essas mudanças foram emancipadoras!

A experiência de ler aquele texto foi ímpar. Sem dúvida, aquela foi a escolha mais simples e mais íntima que eu tinha feito nas últimas 24h. Eu não escolhi um título, eu escolhi uma chave, escolhi a possibilidade de ser uma pessoa diferente e melhor em relação a pessoa que eu era. Eu havia enfim atravessado a ponte de um eu previamente programado que tanto me aprisionava.

Por isso, nesse fim de ano, nesse início de novos tempos que a virada dos meses nos proporciona, desejo a nós que atrevêssemos a ponte mais vezes. Desejo ardentemente pequenas mudanças e que sejamos cada vez mais capazes de sair da zona fria da obviedade e alcançar novos voos sobre aquilo que é natural e autêntico. Desejo mudanças lentas e profundas, pequenas e íntimas, daquelas que só você sabe ter mudado. Desejo um eu repaginado pelo despojamento. Desejo não só novos começos, mas desejo acima de tudo novas escolhas. Afinal de contas, ser óbvio estará fora de moda em 2018.

Feliz Ano Novo!

4 comentários sobre “AS DESVANTAGENS DE SER ÓBVIO”

  1. Realmente as mudanças nos faz crescer ou melhor amadurecer. Para mim as mudanças lentas são as mais importantes e impactantes.
    Quero poder ver as mudanças em mim primeiramente para que depois o outro veja.
    Quero ser eu, só eu, como fui planejada e saber acolher boas safras da vida.
    Obrigada por esse texto, ou, cronica. Você está de Parabéns!.

    1. Sem dúvida Pedrina, as maiores mudanças são que vêm de dentro para fora, as que experimentamos antes dos outros perceberem! Espero que possamos alcançá-las sempre, são frutas raras! Obrigada você por mergulhar nessa leitura e se deixar tocar por ela!

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