MENINO DO RIO

Retrato Racial ou Social?

O ano mal começou e os virais de internet já estão movimentando a rede. Com mais de 30 mil reações e mais de 8 mil compartilhamentos a imagem de Lucas Landau e o menino de Copacabana provocaram discussões acentuadas. A foto – que pode ser vista acima – mostra em primeiro plano um menino no mar da Praia de Copacabana observando a queima de fogos, enquanto o restante das pessoas brindam e tiram fotos logo atrás dele, em segundo plano. Nada que pudesse ser muito instigante, exceto o fato do menino em questão ser negro.

O fotógrafo, que trabalha para a Agência Reuters – a maior agência de notícias e multimídia no mundo, segundo descrição do próprio site da empresa – cobria o réveillon do Rio de Janeiro, e após a ampla circulação da imagem se pronunciou em sua rede social. Segundo o autor “ele estava lá, como outras pessoas, encantado. perguntei a idade (9) e o nome, mas não ouvi por causa do barulho. Como ele estava dentro mar (que estava gelado), acabou ficando distante das pessoas. Não sei se estava sozinho ou com família."

Para Lucas, "essa fotografia abre margem para várias interpretações; todas legítimas, ao meu ver. Existe uma verdade, mas nem eu sei qual é. Me avisem se descobrirem quem é o menino, por favor".

A foto em pouco tempo tornou-se motivo de análises e especulações de diversos grupos distintos nas redes sociais. A opinião dos internautas era dividida entre aqueles que ligavam a imagem do menino a realidade racial e social do Brasil, aquelas que buscavam desmistificar e ressignificar a imagem do negro sempre ligada ao abandono, ao flagelo e a margem da sociedade (visão defendida por diversos nomes, como o escrito Anderson França e Mayara Assunção, do Coletivo Kianda) e outros que ressaltavam a imagem em si como ator central da discussão.

Reprodução do Facebook

 

Dentro de todo esse panorama, é fácil perceber que o fato discutido nos milhares de compartilhamentos está mais ligado ao poder da imagem atualmente e não apenas a mensagem que ela traz. No tempo da informação não é preciso muito para que discussões comecem, bastam boas imagens. Principalmente se ela for divulgada por uma grande agência, retratando a imagem construída do Brasil, nacional e internacionalmente, e que remexe em uma de nossas maiores feridas, ainda aberta e sangrando: a questão racial. Nada soa como acaso, embora possa realmente ter sido!

Nosso país segue um processo muito intenso de mudanças e rupturas, nem todas definitivas tendo em vista a permanência de alguns comportamentos culturais. Tal mudança, leva um público em massa a iniciar questionamentos mais incisivos a assuntos que antes eram tratados com distanciamento. A própria internet e a possibilidade de se expor – com a falsa ideia de que na rede não existem barreiras – potencializa essa conduta e cria os chamados ativistas de redes sociais. Foram eles que disseminaram a imagem de Lucas e tornaram ela um símbolo de projeções do ano novo. É aqui dentro, em meio ao novo mundo que a conexão sugere, que experimentamos novas maneiras de relações, interações e reinvindicações sociais. Analisar o quanto isso é benéfico ou prejudicial levará tempo e cabe exclusivamente a especialistas.

Quanto a nós, não há discussões que é necessário um olhar mais demorado e minucioso sobre a questão racial, que precisa sim ser debatida e retratada em todos os nossos ambientes de convívio. Porém, a imagem em si – como o próprio autor dela nos fala – abre parênteses para inúmeras interpretações e não necessariamente retrata o sofrimento de um menino negro frente ao racismo. Antes de ser um menino negro, ele é um menino. E não aprendemos a discutir sobre nossos meninos, apenas sobre nossos meninos negros.

A imagem de Landau retrata a sociedade brasileira, suas nuances mais cruas e a maneira como ela se vê e é vista. Retrata isso em sua foto e na repercussão dela, na fala de seu autor e nos comentários dos milhares de internautas, retrata isso em suas cores e na ausência dela.

Uma imagem é sempre muito mais que isso. E para compreendê-la é preciso ir além da superficialidade!

2 comentários sobre “MENINO DO RIO”

  1. Perfeita sua análise!
    A cor da pele acaba por nos relacionar com uma identidade social que já está preestabelecida para o negro e para o branco.
    2018 iniciou com um ótima imagem viral.
    Que pra mim significa que precisamos admirar com mais entusiasmo os detalhes da vida e com menos atenção as negatividades.

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