A SOCIEDADE DO SILÊNCIO

“O feminismo está guardado nas palavras – é tudo que sei!”

Imagine a seguinte situação:

Você chega a uma determinada cidade (dê a ela o nome que desejar) e lá todas as pessoas do seu sexo são obrigadas a permanecerem em silêncio absoluto por um tempo indeterminado. Você não pode escolher entre falar ou ficar calado, você simplesmente fica calado, não há opções, apenas é assim. A princípio acontece um estranhamento, você se assusta, fala algumas vezes sem querer e nesses lapsos de esquecimento é brutalmente corrigido. Você percebe o olhar de julgamento das pessoas nesses momentos, você percebe também o quanto você representa um ser estranho lá. A questão é que ficar em silêncio te incomoda muito, principalmente quando algo bom demais precisa ser dito ou quando você tem necessidade de falar sobre uma coisa que não gostou. Mas, aos poucos você percebe que o silêncio é essencial se você realmente deseja ser aceito naquele lugar.

Você passa então a conformar-se aos poucos. A cidade corre bem, todos convivem em harmonia e ninguém sabe sobre suas alegrias ou tristezas, estão todas escondidas no seu silêncio. A medida que novas crianças do mesmo sexo que o seu nascem, aprendem a ficar caladas. Algumas sabem falar, são ensinadas escondido. Outras crescem sem nunca ouvir o som das palavras; enquanto algumas outras ainda, mesmo aprendendo a falar, preferem o sossego do silêncio.

O tempo passa, você se estabelece bem naquela cidade, cria vínculos fortes, relações poderosas e não pretende sair de lá. Aprendeu a conviver com a ausência de palavras mesmo ela sendo incômoda e inoportuna. Embora tivesse muito a dizer, o silêncio foi o que possibilitou você ser quem é hoje e possuir o que possui. Calar-se passou a ser cômodo para você e a única alternativa para outras pessoas.

No entanto, aparentemente do nada, uma pessoa decide romper esse estigma, decide falar mesmo sem poder, decide sair do vazio profundo que a ausência de palavras forma. Essa pessoa começou com pequenas palavras, na sua própria casa. Percebeu que era bom dizer o que se pensa e então decidiu dizer nas ruas o que se passava dentro dela. Essa pessoa saiu e quis ser ouvida. Logo, outras pessoas do mesmo sexo que o seu começaram a perceber suas vozes, a ouvir o som de suas próprias palavras e não acreditaram que eram capazes de tanto.

Você, sem entender o que estava vendo, lembrou-se que um dia tinha uma voz. Lembrou-se que guardava muitas palavras dentro de si. Se assustou. Você foi então surpreendido por uma dessas pessoas que agora falavam, ela te disse empolgada: “Estou falando! Estou falando! ”. E você, mesmo com muito medo ousou falar, mesmo esquecendo como fazia, mesmo balbuciando alguns sons, disse: Eu também!

Aquela cidade nunca mais foi a mesma.

Muitos assistiam apavoradas aquelas pessoas tão caladas falarem. O silêncio era habitual, natural, não podemos condená-los por isso. Grandes mudanças são lentas. Você sabia que com o tempo os sons das vozes nas ruas, nas casas, nas pessoas, seriam também habituais e naturais como o silêncio um dia foi.

Você então descobriu ser muito mais feliz ouvindo o som das palavras do que calando eles dentro do seu coração. Você podia ser tudo que é, possuir tudo que possui e ainda assim, ter o direito de não calar sua voz!


Foi isso que entendemos e lembramos ao ouvir o discurso de Oprah Winfrey na edição desse ano do Globo de Ouro, ao ver alegres a tirada sarcástica de Natalie Portman, ao admirar encantadas os vestidos negros que cobriram o tapete vermelho, ao ler esperançosas a resposta certeira ao manifesto liderado por Catherine Deneuve na França. Tudo isso em uma só semana, tudo isso de uma vez só.

O mundo assistiu anestesiado um feminismo doce e firme que desponta a todo vapor na indústria do entretenimento e ganha todas as esferas sociais, à medida que abusa da influência de suas vítimas, transformando-as em vozes que não querem se calar. O feminismo é hoje um movimento baseado em palavras, que se transforma em ações na proporção que compreendemos sua real função: tornar-nos iguais e não superiores.

Após um 2017 repleto de reflexões acerca do tema, começamos 2018 respirando um ar feminino e esse é apenas o primeiro passo de um longo caminho. Não há mais espaço para a sociedade do silêncio, o tempo acabou!

Subtítulo parafraseando o poema de Manoel de Barros – Tratado geral das grandezas do ínfimo.

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