SURUBINHA DE LEVE

Pega a visão!

Sim, estamos vivendo a primavera feminista no Brasil e isso é indiscutível, e em relação a isso, não estamos falando sobre posicionamentos, mas sobre fatos. Sendo assim, em tempos de mudanças de paradigmas, o assunto se estende, vira discussão, provoca a saída da zona de conforto social em que nos estabelecemos e passamos a não tolerar mais certos comportamentos antes vistos como normais e comuns.

Foi dentro desse contexto que “Só Surubinha de Leve”, música lançada em setembro de 2017 – e amplamente divulgada agora no início de 2018 – chegou ao conhecimento do público em geral. Alcançando em pouco tempo os topos das empresas de streming, como Spotify, o hit do Mc Diguinho fala em seu refrão: “Só surubinha de leve / só surubinha de leve / Com essas filha da puta / Taca a bebida, depois taca a pica / E abandona na rua”. Nem é preciso pensar muito para entender que a grande questão discutida é a maneira como a figura da mulher é colocada nesse cenário.

A partir disso, começamos nossas reflexões.

A música, assim como qualquer outra forma de expressão artística, reflete a sociedade na qual está inserida. Sendo assim, é importante pensar: qual sociedade estamos representando ao cantar “só surubinha de leve”? Qual a figura de mulher que domina o nosso imaginário coletivo? Qual a figura de homem que domina o nosso imaginário coletivo? São essas as respostas essências para entender essa música e sua polemica. A mulher no Brasil ocupa um lugar de objeto sexual. Vai além das bandeiras levantadas sobre igualdade salarial e de direitos, sobre autonomia e violência. Elas são delicadamente colocadas no ponto alto de nossa sociedade: o sexo. Essa verdade está impressa nas revistas e jornais, todas explorando o corpo feminino ao máximo e as obrigando a viver uma sexualidade irreal, fazendo que os homens deslumbrem a possibilidade latente do sexo disponível a qualquer momento em corpos milimetricamente trabalhados.

Yasmim Formiga e sua publicação contra a música no Facebook, que viralizou na internet essa semana.

Achamos absurdo ver notícias vinculando na mídia sobre estupros coletivos na Índia, nos indignamos com casos de pais que prendem suas filhas em porões e as estupram por anos nos Estados Unidos. Sentimos repulsa com esses casos, mas e por aqui? E no Brasil onde a violência contra a mulher é velada? Onde as agressões físicas passam a ser um resultado brutal de uma agressão psicológica diária? Aqui achamos que as mulheres se ofendem por coisas pequenas demais.

Inúmeras músicas iguais a essa – ou até piores em conteúdo – são vinculadas nos chamados “proibidões”, são ditas sutilmente nas mesas de bares, são vividas de maneira branda nos relacionamentos, sejam eles afetivos ou não. E, toda essa avalanche de informações é processada por homens e mulheres, filhos de um país que coloca o sexo como um grande assunto tabu do ponto de vista puritano, mas que o explora ao máximo se tratando do corpo feminino e do fascínio que o próprio ato sexual proibido provoca no coletivo.

Ao Mc Diguinho, seu comportamento de confronto é natural e sua letra entendida dentro do contexto social que vivemos. A questão é que ele não é mais aceita, não pode ser e desejamos que seja amplamente discutida em bares, jornais, redes sociais e conversas de fila de banco. É na discussão que desconstruímos preconceitos e violências, é falando que entendemos que a mudança não está mais batendo na porta; ela já entrou, sentou no sofá e faz as alterações necessárias em nossa casa.

Que nada seja jogado na conta do funk, nossa expressão cultural tão forte e viva, mas sim na conta certa: a do machismo encoberto. Não queremos uma versão light da música, queremos relações e pensamentos coletivos saudáveis.

Links interessantes sobre o tema:

Especialistas dizem que “Só surubinha de leve” não configura apologia ao estupro

Autor de “Só surubinha de leve” faz nota de esclarecimento

Protesto de Yasmim Formiga contra a música “Só surubinha de leve”

Resposta Feminina da dupla Carol e Vitoria

MC Diguinho lança clipe de versão ‘light’ de ‘Só surubinha de leve’

2 comentários sobre “SURUBINHA DE LEVE”

  1. A música expõe uma verdade nua, um pensamento machista real que é cultivado veladamente em nossa cultura desde sempre e é isso o que incomoda: a honestidade sobre os fatos. É aquela velha história “da porta pra dentro vale tudo”, então enquanto versos cruéis mascarados (versão light) são cantarolados por aí, tudo bem. O que perturba não é a profanação que os trechos sugerem, mas a “merda” que é esfregada na nossa calçada (ou em nossos ouvidos); porque, lamentavelmente, a única violação que nenhum sujeito admite é a de si próprio.

    1. Esse é o grande questionamento: por que cantamos isso? que sociedade é essa que canta esses versos? A resposta trás medo e esperança! Obrigada Allana, por sua opinião tão lucida!!

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