A SOMBRA NO MURO

Quando descobrimos quem somos

Ontem vi minha sombra no muro da esquina, e foi devastador!
Havia nela uma mulher que eu não conhecia. Suas formas, traços, cabelos. Nada era meu. Ela era forte, parecia destemida. Realmente, nada era meu.

Por onde ela andava todo esse tempo? Onde ela queria me levar? Por que apareceu agora depois de tanto tempo escondida em mim?

De fato, eu carregava a dor daqueles que não sabiam quem eram. Eu fazia parte dos que se procuravam por aí. Por isso, me achei perdida nas brechas banais da vida. Descobri que minha existência cabe em qualquer lugar.

Nós, que não sabemos quem somos, precisamos não saber quem somos, ora essa! É claro que não podemos saber. Como sofrer as dores sensíveis da alma sabendo quem se é? Só os que não se sabem vivos entendem as insignificâncias.

Foram até bonitos todos esses anos cegos em que andei sem ter caminhos, em que amei sem saber sentir, em que fui alguém a qual não sabia quem era. A mulher refletida no muro tirou tudo de mim. A mulher refletida no muro me entregou de presente uma vida que era minha, olhem só: uma vida só minha, um alguém que era eu. E eu, não sabia...

Quando as mulheres refletidas nos muros te mostram outras possibilidades de vida, não há mais como voltar atrás. Elas exigem de você que o barco siga em frente pelo rio. E você só deve remar, nada mais.

Na imagem, o mural Flower Girl, do artista de grafites Banksy

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