NATURAL AQUI DO RIO DE JANEIRO

Soluções Superficiais X Problemas Complexos

Nessa última semana assistimos perplexos a cobertura das operações policias na Cidade de Deus, comunidade da zona oeste do Rio de Janeiro. Com intensos tiroteios entre traficantes e policias em uma operação no local, três supostos suspeitos foram mortos pelos policias desencadeando assim, segundo a PM, a resposta das facções criminosas. Dessa forma, presenciamos o fechamento da linha amarela nos seus dois sentidos em diversos momentos das últimas quarta e quinta-feira, barricadas de fogo e episódios de tiroteios em diferentes momentos e níveis. Até então, uma notícia normal a realidade carioca. Não fosse a proporção do evento e a maneira como ele foi vinculado em alguns canais de comunicação.

Ao ver as imagens dos polícias abaixados em plena via, se escondendo atrás de muretas e trocando tiros com traficantes também altamente armados, entendi que todos aqueles homens impediam a cidade de seguir seu fluxo normal. Ali, naquela cena, a certeza amarga de que vivemos uma guerra civil declarada sacudiu nossos peitos. Nesse mesmo momento, o ministro da defesa, Srº Raul Jungmann, dizia enxergar o sistema de segurança pública do país falido, em um evento provido também pela PM. Olhamos assustados esses acontecimentos que seriam cômicos se não fossem trágicos, visto a proximidade dos fatos.

As matérias dos canais de comunicação, por sua vez, noticiavam o grande prejuízo que o fechamento de uma via que liga a Região de Jacarepaguá à Ilha do Fundão pode causar em um dia comercial no centro urbano. Nenhuma fala sobre as causas reais da violência, nenhuma discussão sobre a realidade dos moradores das regiões de comunidades próximas, nenhum apelo a mudanças reais no sistema de segurança pública do Rio de Janeiro. Ficamos apenas com pena dos nossos amigos motoristas impedidos de chegar aos seus destinos. Não que isso não seja ruim, é muito e eu também ficaria chateadíssima se perdesse um dia inteiro de trabalho presa no trânsito. No entanto, por que discutimos as consequências dos problemas, quando suas causas reais são ignoradas?

Trânsito interditado na Linha Amarela durante os tiroteios.

Não é de hoje que a relação entre policias e moradores dos morros cariocas é complexa e desafiadora. Desde a criação das favelas na cidade com a instauração do Morro da Providência - a partir de ex-escravos e combatentes por volta de 1897 - e, da acentuação das camadas sociais no processo de reforma urbanística proposta por Pereira Passos - com início por volta de 1903 - o Rio é palco do duelo entre brancos e negros, entre culturas aceitas socialmente e culturas ditas como subversivas – se bem podemos usar esse termo. Sim, a disputa vai muito além do tráfico de drogas e nossa reflexão deve levar em conta todo o contexto histórico e social presente na linha tênue que liga a favela ao tráfico.

Se a violência no Rio caminha a passos cada vez mais largos é preciso repensar o início dessa história. É essencial entender que as respostas violentas dos traficantes se dão a perguntas igualmente violentas da polícia, em um ciclo infinito de dor e incessante de medo. Relações raciais e culturais que perpassaram séculos, se materializaram em tráfico de drogas atualmente e levam inúmeros jovens a morrerem em nome de uma guerra que só terminará com uma mudança pontual em nossa cultura. Matar é o último artificio de uma luta psicológica.

Sabe, soluções superficiais não resolvem problemas complexos.

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