CARNAVAL POLÍTICO E INTERVENÇÃO FEDERAL

Meu Brasil Brasileiro

Qual a diferença entre o Brasil e uma panela de pressão? Pergunta difícil em meio a uma semana de tantas reflexões!

Desde 2013 passamos a observar um país aparentemente diferente, que no entanto, se olhado bem de perto, continua igual. É apenas um senhor envelhecido que cultiva seus cabelos brancos bem cuidados, na mesma medida em que revive seus problemas de sempre . Como num ciclo sem fim, em busca de uma democracia atrofiada, reinventamos nossas mazelas, fazemos a manutenção de nossas desigualdades e seguimos firmes rumo a soluções legais que legitimam poderes contrários a direção do tão esperado e sonhado "progresso".

Nesse Carnaval, assistimos anestesiamos a tímida Paraíso do Tuiuti - que enfrentou inúmeros problemas técnicos no último ano - chegar com um grito forte e certeiro, reclamando sem dar meias voltas sobre as causas, os problemas e as consequências de um processo de permanência da escravidão, da conservação da desigualdade social e econômica e de como o pensamento político reflete essa sociedade doente e hipócrita. Na outra ponta da Sapucaí, olhamos admirados a Beija-Flor de Nilópolis, entoando um canto bonito, poético e doce, onde todos os problemas profundos e enraizados do Brasil, podem ser resumidos a duas palavras: corrupção e segurança. Em uma podemos ver o discurso real, autoral de um povo que luta. Na outra o discurso de uma elite - predominantemente branca e de classe média - que enxerga na sequela o problema.

Ainda sobre o efeito de toda essa discussão, as mídias noticiaram maciçamente os eventos de violência que ocorrem no Carnaval do Rio de Janeiro - eventos esses já muito recorrentes a meses e agora validado, uma vez que bateu a porta e entrou sem pedir licença, em bairros como Leblon e Ipanema. Os inúmeros casos de assaltos e saques foram o estopim para que o governo decretasse uma intervenção Federal na segurança pública do estado carioca e passasse o poder de controle da Polícia Militar e Civil às Forças Armadas. O decreto ainda não foi aprovado pelo Congresso Nacional, mas já vigora e causa espanto, trazendo a tona muitas dúvidas e certezas.

Charge do Cartunista das Cavernas - Cartunista Gilmar | Instagram

Muito já se especula entre a relação da medida de intervenção com a Reforma da Previdência. Uns falam da intervenção como uma cortina que mascara a aprovação da reforma e outros sobre a intervenção como uma alternativa do governo que o aproxime mais de uma reeleição, frente o fracasso de suas propostas. O que sabemos é que nossa "querida ajuda" não veio de surpresa e tem sido ensaiada a muito tempo, esperando apenas uma oportunidade de instalar-se comodamente.

Dentro de todo esse caldeirão, as informações são muitas e o conhecimento pleno sobre os fatos ainda pequeno. Por mais que a história nos mostre um caminho, só o tempo pode medir os resultados da atual situação política de nosso país. Entretanto, uma coisa é muito clara e liga diretamente as Campeãs do Carnaval Carioca ao processo de Intervenção Federal no Rio: a questão racial no Brasil - uma ferida ainda aberta e sangrando - dá os contornos de nossas desigualdades, baliza a violência e é tratada como segundo plano quando discutimos as bases de nossos pensamentos políticos, econômicos e sociais. Retratar o local do negro no Brasil não resolve os problemas, realmente não resolve. Mas, sem dúvidas, muda os eixos de compreensão e resignifica muitas faces de nossa sociedade.

Qual a diferença entre o Brasil e uma panela de pressão? Na panela de pressão não podemos ver o caldo entornar. Ele apenas entorna. No Brasil, estamos atentos olhando-o subir!

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PS: A imagem principal do texto retrata o Bloco Galo da Madrugada, em Pernambuco, e foi escolhida por bem ilustrar o tema, mesmo não sendo do mesmo Estado do assunto em questão.

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