ESTÁ EXTINTA A ESCRAVIDÃO?

Liberte o cativeiro social

Os anos passam, as coisas mudam e os problemas sociais por aqui continuam os mesmos.

Essa semana o que mais repercutiu na internet foi o cabelo de Yasmim, assunto que surgiu após sua entrevista ao programa Encontro, da Fátima Bernardes - na Rede Globo - que discutia “Qual a importância da aparência na busca por empregos? ”. Ao longo de sua entrevista, Yasmim coloca os problemas que enfrentou ao buscar trabalho em alguns locais e relacionou-os a racismo por conta de seu cabelo, na época longo e trançado, citando ainda outros pontos colocados pelo entrevistador da loja em que se apresentava. O tema foi amplamente abordado pelo restante dos convidados e a questão da estética foi conversada sobre diversos pontos, incluindo inúmeras formas de exclusão, como altura, obesidade, e inclusive o próprio racismo.

Nas redes sociais o burburinho sobre os cabelos de Yasmim foi intenso e, entre ativistas prós e contras, o assunto do racismo velado em nosso país ganhou força novamente e as práticas preconceituosas descortinadas pela Paraíso da Tuiuti no último carnaval, permaneceram em debate.

Sobre todo esse clima de reflexão, assistimos ainda a estréia de Pantera Negra nos cinemas. O filme, que traz o negro sobre uma nova perspectiva, também casou um caos nas relações sociais e fez o questionamento sobre o racismo tocar pontos cada vez mais delicados. Na trama, o personagem principal não vem de uma periferia americana e nem vence após anos de trabalho em uma luta ferrenha contra o sistema. Nosso herói é rico, forte, destemido, vindo da sociedade mais desenvolvida do mundo e símbolo de uma raça emponderada, que assume sua ancestralidade e sua cultura. Nosso herói é apenas nosso herói, sem rótulos pré programados, sem estereótipos, sem criminalização.

Resposta de Yasmim aos comentários racistas que recebeu após entrevista ao Programa Encontro.

No meio de todos esses eventos, a pergunta da Tuiuti permanece ecoando: "Meu Deus, Meu Deus, Está extinta a escravidão?"
No campo da história existem processos de rupturas e permanências. De uma maneira bem didática: os processos de ruptura são aqueles extintos com o passar dos anos e as de permanências são aqueles que se mantém vivos ao longo do tempo. Sendo assim, a resposta é não. Não está extinta a escravidão. Não está extinta a segregação, o preconceito, as piadas, o racismo linguístico, os olhares tortos, os padrões de beleza, os empregos perdidos a partir de sua cor, a alegria dos rostos de traços finos, a comparação da "alma branca", as senzalas físicas e existenciais, o alto índice de mortalidade, a ideia de que pensar demais em preconceito está ficando chato. Nenhum desses pontos passaram por processos históricos de rupturas, a medida que realizamos diariamente a manutenção de suas permanecias.

O problema não é o cabelo, o problema é o racismo. O problema é o padrão branco/europeu de beleza que nos aprisiona, nos coloca em posição de inferioridade e nos diz que auto estima é algo distante demais para ser alcançado por alguém que não precisa dela. O problema é a medida exata demais em que somos colocados, milimetricamente encaixados. O real problema são as pessoas que não conseguem o outro com os mesmos olhos que olham a si próprios.

Exótico não é público que enche os shoppings do Rio, exótico não é cabelo de Yasmim. Exótico é pensar que estamos no século XXI e ainda buscamos padrões brancos para formar uma sociedade latina e majoritariamente negra. Exótico é estar tão alheio a realidade, que nem se percebe quem se é.

Links Interessantes sobre o Tema:
Entrevista de Yasmim ao programa Encontro

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