MARIELLE, PRESENTE

Morre Marielle. Morre a democracia.

É difícil explicar o Brasil. É difícil explicar porque é difícil entender. Depois de quarta-feira, depois de uma morte política de proporções gigantescas, o Brasil tornou-se uma incógnita ainda maior.

Nessa semana, assistimos anestesiados, doloridos até os ossos, a morte fria e repentina da vereadora carioca Marielle Franco. Brutalmente assinada após sair de um evento na Lapa, o carro de Marielle foi alvejado por nove tiros, após uma perseguição de aproximadamente 4 km, ainda não confirmada pelas investigações. Marielle era nascida no Complexo da Maré e lutava pelos direitos nas mulheres, dos grupos LGBT’s e dos negros, combatendo de maneira feroz a mortandade de jovens negros por parte das ações policiais na cidade do Rio de Janeiro.

Eleita com a quinta maior votação na câmara, Marielle foi também designada como relatora da comissão que acompanha a Intervenção Federal no estado do Rio de Janeiro, a qual era abertamente contra. Antes de sua morte, a vereadora deixou claro sua postura contrária as ações da polícia na Região de Acari, principalmente em suas redes sociais, fato que soma e pesa ainda mais quando repensamos sua morte.

Mas por que todo esse auê? Mas por que tantos holofotes a uma morte? Sendo essa morte no Rio, palco de assassinados violentos a todo instante?

Charge da Página Motoka - Facebook

Olhando hoje o ponto sombrio em que atingimos, parece muito fácil compreender a complexidade do cenário a qual o assassinato de Marielle Franco está inserido. Um país que enfrenta uma grande crise política e econômica, que busca saídas a violência naturalizada em sua cultura através de uma Intervenção Federal por meio das forças militares e sofre calado o massacre de seus filhos mais pobres jogando a conta alta do descaso social e cima da corrupção.

Quando Marielle morreu, morreu também nossa democracia. Ao calar a voz das minorias expressada pela vereadora, calaram a voz de um povo, de uma classe social e racial, diariamente submetida à violência, marginalizada, criminalizada e subjugada como pobre e incapaz. Classe essa colocada “delicadamente” em sua condição de inferioridade e nunca ouvida, nunca atendida. Classe essa que sofre o calor de um Rio de Janeiro violento e sangrento há anos e recebe a intervenção apenas quando a sociedade vê o sangue dos mortos e a intensidade dos assaltados chegarem a bairros como Botafogo.

Quando Marielle morreu, morreu também nossa democracia. É o olhar assustado de uma sociedade que observa seus caminhos históricos se cruzarem, onde passado e presente se encontram em uma de suas piores retrospectivas: o retorno do cálice. A volta do tempo em que falar as verdades sociais e políticas é crime de morte.

A morte de Marielle não foi um exagero. Espero que a história contada por alguns não a construa dessa forma. Quando olharmos firmes, enfim lúcidos, nossa própria realidade, então veremos Marielle viva nos corpos e vozes das minorias que brigam por seus espaços, em uma parte do país que ainda tenta salvar o que restou de nossa frágil democracia.

Marielle, presente. Agora e Sempre!

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