O SEU CORPO É SEU?

Você já conheceu uma casa em obras que nunca fica pronta? Eu já, meu próprio corpo.

Durante muito temo, e ainda hoje, me vejo içada do meu corpo. É como se eu não habitasse nele e fossem necessárias muitas reformas para que o meu eu – nunca pronto – pudesse enfim morar em paz naquele lugar. Meu corpo não satisfazia os meus desejos, não cumpria sua missão na terra, sua missão de ser bonito. Ele não mostrava em toda sua exuberância a beleza feminina que eu tinha. E eu não cabia dentro dele. Não conseguia me acomodar naquele lugar. Nada era confortável. Os olhares das pessoas, as roupas, os sapatos, os brincos, a pele, o cabelo, meu Deus, o cabelo era a pior parte de todas. Tudo incomodava. Nada cabia direito naquilo que eu era e o meu corpo era o grande culpado por tudo isso.

Foi então que ouvi de um colega que na academia eu deveria malhar bem para ganhar “um pouco de bunda e de coxa”, que era o mais essencial para definir o corpo de uma mulher. Essa pergunta foi devastadora. A partir dela surgiram milhões de perguntas na minha cabeça. Perguntas sobre meu próprio corpo e sobre o corpo dos outros. Perguntas até sobre as próprias perguntas. Pensei então no quanto àquela fala era corrosiva e tóxica, principalmente porque veio de um adolescente. Um adolescente formando sua opinião sobre a vida. E ali, naquela frase, estava confirmado: o problema do corpo ia além de mim mesma. Era um problema social.

O fato é que eu não deveria fazer nada para mudar meu corpo. E fico feliz em saber que não fiz. Aquela determinada mudança ser o mais essencial para definir um corpo feminino não definia o meu corpo, não definia a Tamires. Eu não deveria fazer nada com o meu corpo apenas para agradar um padrão pré-estabelecido. O padrão de um tipo de corpo que existe dentro de uma infinita possibilidade de interpretações que o termo corpo representa. Isso era triste demais, pesado demais para qualquer pessoa carregar, principalmente as mulheres.

Assim, despertei a solidificação da ideia - que já estava começando a passar pela minha cabeça sempre - de que meu corpo era uma morada. Meu corpo era a única casa na qual eu realmente habitava. Era o lugar onde eu podia viver minha existência e experienciar o mundo. O meu corpo era a representação física daquilo que eu sou. A materialização dos meus pensamentos e sentimentos. O canal que me liga a vida. O meu corpo era eu.
Naquele instante entendi todos os processos que eu vivi até chegar aquele momento.

Tudo que precisei sofrer para compreender que não existe o belo, não existe o padrão, não existe a soma pesada dos pesos dos outros. Existe um eu que mora em mim e se abriga no meu corpo. Sendo eu, Tamires, a conta perfeita e infinita de uma existência. Conta essa que não pode ser medida, só vivida. Conta essa que ninguém paga, apenas eu. E no fundo nem é conta, é ser.


Pesquisando sobre o tema, descobri Valter Hugo Mãe e Natally Neri, dois vídeos que mudaram minha concepção sobre mim. Espero que mudem as suas também! Faça desse texto só um início...

O Paraíso são os outros - Valter Hugo Mãe

Sobre Corpo - Canal Afros e Afins por Nátaly Neri

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