O TEMPO CERTO PARA DESISTIR

Quando reconhecer seus limites

Todos os anos, na Páscoa, acontece uma missa bem extensa no sábado de Aleluia, a chamada Vigília Pascal. Lá, são feitas várias leituras bíblicas e cantados vários salmos (que para quem não conhece, são como poesias). Como na Igreja em que frequento eram poucos vocalistas sempre me chamavam para dar uma ajuda, cantando um desses.

A grande questão é que eu não canto nada! Não sou profissional, nunca fiz curso, não sinto vontade de fazer e cada vez mais tenho certeza que definitivamente não é essa a minha praia. Mas, aprendi com meu mestre Jiddu Saldanha, que existam inúmeros tipos de cantos e cada um deles possui sua beleza. Não são apenas as vozes gritantes do The Voice que podem nos emocionar. Assim, mergulhada nessa convicção, eu ia lá e cantava, sem me importar muito com a opinião alheia. Era algo que envolvia sentimento, algo que me emocionava, então eu fazia.

Acontece que esse ano as coisas foram bem diferentes.

Felizmente, existem atualmente muitos vocalistas no Ministério de Música da Igreja em que vou e mesmo assim, não sei por que, um dos queridos salmos foi parar comigo. Eu não tive como ensaiar, enviei o que fiz pelo Wpp do músico e cheguei lá na hora com a cara lavada, sem nóias, pronta para cantar. Só que nada disso aconteceu. Na hora, fiquei gelada, tremendo e sofri tanto que errei tudo que era possível errar. Um completo desastre! Saí da Igreja querendo me enfiar em um buraco, embaixo da mesa do altar, qualquer lugar em que ninguém pudesse me ver. Não consegui é óbvio e precisei encarar as pessoas me dizendo “Não, que isso, foi ótimo! Agora é fazer uma aula de canto, né?” Só Deus rs!

Enfim, depois de todo esse evento traumático, fiquei com a ideia de que às vezes é preciso desistir. É preciso abrir de mão daquilo que se quer, que se faz, daquilo que se deseja e principalmente daquilo que se julga amar. As coisas simplesmente não cabem mais, não se encaixam na vida que passamos a ter. Ou pior, talvez elas nunca tenham se encaixado e nós, sem querer acreditar, ficamos ali tentando fazer um círculo caber no espaço de um triângulo.

Eu nunca soube cantar, não nasci para isso. Não é essa a luz que desejo acender no mundo. Eu gosto de cantar, como todo mundo gosta. Mas, o querer, o gostar, não determina que eu deva insistir em algo que não faz parte de mim, que não representa aquilo que eu sou, que não cabe no tamanho da minha existência.

Às vezes as coisas não cabem mesmo. Às vezes aquele amor realmente não é nosso. Às vezes nós emagrecemos e/ou engordamos e as roupas velhas precisam ser doadas. Às vezes a profissão escolhida não é de fato sua vocação. Às vezes aquele amigo não é tão amigo assim e precisamos de novos amigos. Às vezes aquela relação acabou e precisa ter um final. Algumas vezes não somos mais quem éramos, então precisamos aceitar as mudanças. Às vezes as coisas não cabem mesmo e deixar que elas terminem ou passem é a escolha mais dolorida de todas. A única escolha que te faz melhor do que antes.

Talvez eu seja mesmo uma pessoa bem corajosa. Afinal de contas, não é qualquer um que concorda em ficar cantando mal, sem estar sendo coagido, na frente de todo mundo. Talvez eu seja louca por essa convicção dos inúmeros cantos possíveis e não me importe com o que pensam. Talvez eu seja mesmo tudo isso junto, mas no fundo eu sei que eu precisava daquele momento para desistir de coisas maiores que já não cabiam mais.

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