ROUBARAM MEU FANDANGOS

Sobre caminhar, comer e olhar a cidade!

No dia do trabalhador, resolvi contar uma história que aconteceu quando fui a trabalho para o Rio, lá por volta de 2015. É antigo, mas faz muito sentido!

O Rio de Janeiro é tecnicamente a única “cidade grande” que conheço. A primeira vez que a visitei repeti em detalhes a cena clichê de um matuto em meio as fascinantes luzes cariocas. Senti-me ridícula. Não havia outra maneira de encarar a cidade se não essa. Era o inicio de uma relação amorosa conturbada entre nós. Digamos que o Rio me conquistou aos poucos.

Andando por lá, em um final de tarde comum na rua da Carioca, percebo o grande mar de invisíveis e o clichê das grandes cidades: as pessoas andam sem se olharem, se esbarram sem se sentirem. Foi então que roubaram meu biscoito. Assim, de súbito como esse ponto na frase. Eu andava tranquila, aproveitando deliciosamente os lugares e pessoas que via pelo caminho, quando fui cercada por umas 10 crianças e adolescentes com olhares distorcidos. Eles pediram o biscoito por que? Logo compreendi que não estavam pedindo... Entreguei e sai correndo para o vendedor mais próximo, clamando um amparo. Só ouvi dele: “Eles são assim mesmo! Não pode dá mole”.

“Não pode dá mole” ficou zanzando pela minha cabeça...
Eu não podia dá mole para uma criança? Eu não podia andar pela rua?

Não, não podia. Só podia andar pela rua, não podia sentir a rua, não podia olhar a rua. Era só passar. Passou está bom. Só passou? Tá ótimo! Parabéns! Segue sempre assim, sem olhar para o lado, sem pensar a vida, sem sentir o cheiro e o sabor, sem ver o outro lado da calçada. Só passa mesmo, que nossa vida é vazia demais para ser vista. Mas passa rápido, que o tempo é pouco e essa nossa vida aqui corre ainda mais rápido que ele. E vai passando mesmo que sem sentido, porque o importante é passar e não o que se tem no caminho!

E assim, passando, roubaram meu biscoito no Rio. O problema é que não levaram só ele, levaram também a beleza do dia que eu via e a descoberta daquele canto tão bonito da cidade que agora para mim é só um canto evitado.

Voltei para o meu interior e ficou comigo a dúvida: Será que somos a cidade ou a cidade é o que somos? Quem mente para quem?

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