PRÉDIO DESABA EM SÃO PAULO

“Limpam com Fogo”

Assistimos nessa semana o incêndio e desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida, no centro de São Paulo. O prédio, que segundo fontes, foi construído em 1961 era de uma empresa de vidros, passando a pertencer a União devido dívidas. Logo depois, oficialmente do estado, foi sede da Polícia Federal sendo desocupado em 2001. Desde então, a responsabilidade sobre as instalações e o direito de pose do local passaram a ser anfitriões em uma dança entre União e Prefeitura de São Paulo. Vazio, transformou-se naturalmente em casa para cerca de 150 famílias sem teto.

Assistimos com um estranho senso de normalidade mais de 300 pessoas perderem suas casas, seus documentos, todos os seus móveis e roupas, todo o seu material de trabalho (no caso de catadores de itens para reciclagem), seus parentes e amigos, suas vidas, seu lar – por pior que fossem as condições do local –, perderem seu chão, com toda a literalidade que a palavra exige. Assistimos a tudo isso com um estranho senso de normalidade.

Assistimos a notícia na TV, ficamos chocados; comentamos nas mesas, nas filas, com alguns colegas de trabalho; especulamos culpados, talvez pensássemos em causas mais complexas, mas o curto na casa de Walkiria foi suficiente; depois seguimos, tranquilos e conformados, nossas vidas normais, esperando alguma notícia mais empolgando ou triste que essa, para reiniciar o ciclo e continuar a lógica da cronologia dos fatos.

 

Assistimos o governo público permanecer de braços cruzados, mesmo em frente às inúmeras irregularidades do prédio e suas problemáticas envolvendo incêndio anunciadas, não conseguindo a tempo resolver um problema tão complexo e com raízes tão profundas, como a questão da falta de moradia. E por que não conseguiu? Por que demorou tanto? Por que fingiu que não percebeu? Para que fingiu que não percebeu? Por que arquivou os inquéritos?

Assistimos os noticiários desfazendo as relações entre governo e incêndio, entre governo e desabamento. Ficamos observando pequenas matérias sendo lançadas sobre o foco de chamas no 5º andar, na casa de uma família que ainda segue com alguns membros internados. Ficamos admirados com as condições mínimas de saneamento, fiação, uso de materiais inflamáveis, desordem no que diz respeito aos itens de segurança conforme orientações dos bombeiros, ações do MDL. Sim, ficamos assustados com tudo isso e devemos. Só não devemos achar que é só isso...

Assistimos tudo buscando não acreditar que um governo seria capaz de abandonar seus filhos a morte como uma saída mais rápida e segura a uma desocupação que implicaria ações concretas em investimos sociais e financeiros. Buscamos achar qualquer culpado. A Walkiria, o cachorro, a tomada, o micro-ondas, a briga do casal, o sono que impediu de apagar o foco, alguém que criminalmente quis incendiar o prédio, qualquer coisa serve. Qualquer coisa serve tanto para nós, quanto para o governo. Qualquer coisa é melhor que o abandono.

No fim, fazemos o que melhor sabemos fazer: assistir!

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