AS BANDEJAS DA PRAÇA DE ALIMENTAÇÃO

Sobre bandejas e o que fazemos de nós!

Todas as vezes em que eu sou servida por alguém em um posto de gasolina, em um restaurante ou em uma loja, eu me sinto mal pelo fato de uma pessoa estar fazendo algo que eu tenho plena capacidade de fazer sozinha, como servir uma bebida no copo, por exemplo. Mas, foi na praça de alimentação do shopping que tive a certeza que aquele incomodo não era loucura ou “alma de pobre” como ouvi de algumas pessoas.

Não faz muito tempo, fui lá com meu namorado. Depois de ter comido mais de mil vezes naquela praça, resolvi apenas parar e observar. Olhar as pessoas, entender seus comportamentos, ouvir suas conversas e rir das piadas que não estão contando para nós, porque isso é muito bom e não custa nada rs. Enquanto fazia isso, esperava meu namorado trazer o que pedimos e guardava nosso lugar na mesa. Foi assim que eu passei a olhar sem acreditar a cena absurda que começava a acontecer na minha frente.

Várias pessoas, VÁRIAS PESSOAS, comeram, riram, conversaram com seus amigos, namorados e quando terminaram suas refeições, levantaram e foram embora, deixando na mesa a tal bandeja que todo mundo ganha. Quando as VÁRIAS PESSOAS que fizeram isso estavam longe, apareceu um funcionário – talvez contratado exclusivamente para isso – recolhendo o prato no qual ele não comeu e jogando fora os guardanapos e copos que ele não usou. E eu, eu fiquei ali olhando o quanto somos arrogantes quanto o assunto diz respeito a bandejas.

Eu não conseguia entender porque as pessoas não levavam seus próprios pratos da mesa. Não consegui entender qual a dificuldade disso. Não conseguia entender porque uma pessoa tem que ser paga para recolher os pratos da mesa. Eu simplesmente, não conseguia entender. Naquele dia, meu mal-estar em ser servida no mínimo, minha "alma de pobre" fez todo o sentido e essas foram as únicas coisas que eu consegui entender.

Não era só a bandeja, nem só o descaso com o outro. Nem era só a maneira como vamos mantendo uma escravidão velada, era mais que isso. Era o fato de que não nos responsabilizamos por nós mesmos e ficamos sempre a espera de alguém que faça algo por nós, de alguém que tire nossa bandeja. E fazemos isso com naturalidade, de maneira quase que instintiva. Às vezes esperamos que tirem a bandeja, às vezes façam por nós uma escolha, que arrumem por nós um novo emprego ou que lavem por nós a louça que sujamos. Às vezes esperamos que decidam por nós aquilo que somos, que realizem por nós nossos sonhos ou que nos amem de uma forma que nós mesmos não podemos amar.

Algumas vezes, não pegamos nossas bandejas!


 

Texto originalmente publicado na página Água na Peneira, que administro na Plataforma Obvious - Site de Escrita Colaborativa em Língua Portuguesa

2 comentários sobre “AS BANDEJAS DA PRAÇA DE ALIMENTAÇÃO”

Deixe uma resposta para Tamires Borges Cancelar resposta