THIS IS AMERICA

Um golpe na boca do estômago

“Você é apenas um cara negro neste mundo
Você é apenas um código de barras, ayy
Você é apenas um cara negro neste mundo
Dirigindo pra gringos ricos, ayy”

Ficar sem fôlego. Ver repetidas vezes. Pensar em palavrões, muitos palavrões; porque só eles conseguem descrever os sentimentos. Compartilhar em todas as redes sociais possíveis. Buscar as referências. Voltar para assistir depois de entender todas as referências. Comentar com qualquer pessoa que encontrar a genialidade das referências. Comentar com qualquer pessoa que encontrar e pedir que ela veja. Mostrar para ela, se for possível. Assistir de novo. Continuar sem fôlego. Esse é o ciclo. Foi assim que observamos sem ação o clip de “This is America” dar um tiro certeiro em nossas mentes.

Com mais de 60 milhões de visualizações no youtube em menos de uma semana do lançamento, o vídeo de Donald Glover nada corresponde a vitimização, assim como nenhuma frase colocada foge da ironia e da agressividade que a canção propõe. E o teatro, ah o teatro, grita como plano de fundo ao excêntrico protagonista que dança em meio às inúmeras referências da cultura racial americana.

 

Dizendo aquilo que não é dito, a música de Childish Gambino – pseudônimo do autor – trabalha a arte como um emaranhado perfeito de lógica e significado, onde cada expressão artística desempenha seu papel de forma marcante e direta. A música, o teatro, a dança... todos compilados e vivos no audiovisual formam uma perfeita teia de conhecimento. O antirracismo, marca dessa teia, ganha vida à medida que entende a arte como um leque de faces e fases, capazes de construir uma atmosfera crítica e social.

Encarando de frente todos as dores e mazelas sofridas pelos negros na sociedade dos Estados Unidos, “This is America” não é um grito de resistência e de luta, é mais. É um grito de representatividade. É um som que ecoa bem alto e forte, fazendo questão de ser ouvido nos quatro cantos da terra e dito sem culpas e medos na bem na cara dos que parecem não ouvir. Um grito que diz “Eu estou aqui e eu tenho plena consciência de quem sou e de como me veem. E eu não sou o que vocês veem. Eu sou bem mais. Por isso, mereço mais.”

E melhor que tudo isso, melhor que qualquer outra coisa, é a certeza amarga e fria, entubada goela a baixo, marcada em cada detalhe, em cada referência delicadamente colocada, de que a arte é antes de tudo um estudo da realidade, é inteligência, é vibração. E nesse caso, é negra e é forte.

Links Interessantes:
Por que o violento ‘This is America’ é o videoclipe do ano (preste atenção no que acontece ao fundo)
As referências de ‘This is America’, o canto antirracista de Childish Gambino
[ANÁLISE] This Is America - Childish Gambino
This is America - Tradução para Português

Deixe uma resposta