GREVE DOS CAMINHONEIROS

Um retrato amargo do Brasil!

Semana passada quando a ideia da greve surgiu, nenhum de nós considerou a possibilidade que ela de fato nos atingiria. É, mas ela atingiu. Segundo os jornais ela atingiu os mercados, os postos de gasolina, os aeroportos, a circulação dos ônibus, a chegada de materiais aos hospitais, as aulas em escolas públicas. Só não atingiu o que deveria realmente atingir: nossa consciência coletiva.

E, no meio de todo esse sistema, a grande pergunta que me faço é: Como uma classe, antes completamente esquecida, conseguiu alcançar um país inteiro?

O que mais me surpreendeu nesse processo foi o distanciamento entre a ideia de necessidade. Durante todos os dias de greve, o preço justo do diesel e a imensa lista de impostos que existe entre a relação Petrobras x Consumidor, parecia impactar apenas aos caminhoneiros. É como se cada um de nós, que nos transportamos diariamente – seja no carro particular ou no transporte coletivo – não sofrêssemos do mesmo mal. Diariamente reclamos das tarifas de gasolina, mas como o impacto é “mínimo” no nosso orçamento, preferimos manter uma aparência social e continuar nos manifestando apenas em memes de redes sociais.

 

Charge de Bruno Galvão

Um grande reflexo dessa ideia de necessidade também pode ser observado na relação entre coletivo e individual. Conversando com algumas amigas, percebi que em quase todo o país as pessoas saíram em uma corrida desenfreada pela busca de combustível e alimentos, com a intenção de garantir sobrevida própria. Não era importante pensar se o outro não teria acesso aos mesmos benefícios por conta dos excessos de alguns, era preciso apenas atender a emergência do eu. Em um cenário complexo de reinvindicação econômica e, consequentemente política, que afeta nossa sociedade como um todo, o pensamento social foi o de priorizar a necessidade individual em detrimento a coletiva. Que convenhamos, tem um impacto muito maior em longo prazo.

Mas, para entender como toda essa onda de raciocínio nasce é preciso compreender o processo de comunicação. Em todos os canais de informação – seja TV, rádio, internet, filas de banco e caixas de supermercado, porque sim, filas são o melhor local para entender o país – o discurso era o mesmo: as consequências da paralisação. Não era possível ouvir claramente as causas que motivaram uma greve dessa proporção. Não era possível interpretar de maneira lúcida os dois lados da história e assim, quem sabe, poder formar uma opinião mais assertiva sobre o governo e sobre a classe dos caminhoneiros. As únicas notícias vinculadas demostravam a sensação de urgência, caos e instabilidade que a greve provocou. Todas elas, encerradas com chave de ouro em duas entrevistas que não devemos esquecer: a de Padilha e seu apelo às “famílias brasileiras” e a do nosso querido Presidente e a referência a “Minoria Radial”, com o uso de força para a contenção da greve em meio a certeza de que um acordo entre governo e a classe não chegou a ser fechado.

No fim, é difícil medir quais serão os próximos passos e os resultados da greve, bem como suas intenções. Por outro lado, é fácil ver a fragilidade do governo diante da crise e entender como a classe dos caminhoneiros alcançou tanto em tão pouco tempo. E, acreditem, as respostas vão além do sistema de transporte de mercadorias, muito além. A resposta está em um país que luta por mudanças, mesmo que silenciosamente, já que a greve dos caminhoneiros só consegue fazer barulho para aqueles que abrem os ouvidos para escutá-la mais de perto.


Links Interessantes:

Greve dos caminhoneiros: como se formou o nó que levou à paralisação

Greve dos caminhoneiros: veja memes e reações da internet

A greve dos caminhoneiros em imagens

AO VIVO | Greve dos caminhoneiros: as notícias da crise dos combustíveis

O que você deve saber antes de dizer que é contra ou a favor da greve dos caminhoneiros

2 comentários sobre “GREVE DOS CAMINHONEIROS”

  1. Estou há quase uma hora buscando alguma nova notícia sobre a situação da greve, mas parece que a utilização das forças federais – leia-se força bruta e luta corporal -, não é algo que mereça ser vinculado. Após mais de 16 horas do pronunciamento do “nosso querido presidente”, a notícia deste mesmo pronunciamento ainda é a “boa nova”. Me parece que os jornalistas, após 4 dias de greve, resolveram tirar um lindo cochilo, ou talvez divulgar o que acontece, na forma como acontece, seja prejudicial pra imagem do governo, já que só existe um vilão por aqui: o povo!

    1. Exatamente! Duas coisas me impressionaram muito: a maneira como a TV e a rádio buscaram mostrar apenas as consequências da greve, “vilanizando” os caminhoneiros e sua reivindicação justa. E a outra, a forma como nossa inteligencia foi subestimada pelo governo. Lamentável!

Deixe uma resposta