O SENHOR DO FRETE

Sobre aqueles que esquecemos!

Eu comprei um carro tem pouco tempo – cerca de um ano e meio – e para colocá-lo na vaga dentro da empresa em que trabalho, nós funcionários, precisamos pedir uma autorização e esperar por mais ou menos um mês, até saber se fomos liberados ou não para parar lá dentro. E claro, foi exatamente isso que eu fiz.

Nesse um mês de espera, quando vinha trabalhar, passei a colocar o carro em uma rua próxima. Uma rua bem movimentada que todo mundo julgava menos perigosa –principalmente meu pai, que para mim é uma das opiniões mais importantes. Foi nesse processo de esconder o carro na rua de lado que conheci um senhor que trabalhava ali perto, fazendo fretes. Eu estacionei, passei por ele, disse bom dia sorrindo, ele respondeu sorrindo de volta e pronto, nasceu ali nossa amizade.

Eu cometi a aparente burrice de colocar o carro na mesma vaga, da mesma rua, todos os dias, e nesse caminho, sorrir dando bom dia ao tal senhor. Ele, que não era bobo nem nada, percebeu logo minha movimentação e, mesmo sem eu pedir, começou a me passar dicas dos melhores locais da rua para estacionar. Até que um dia ele disse “deixa mais para cá que daqui da minha cadeira eu consigo ver e vigio para você”. Então, todos os dias, durante quase um mês, eu fui deixando meu carro no local que ele achava mais seguro e ele, que ficava ali o dia inteiro esperando os fretes, olhava o carro para mim. Assim, sem pedir nada. Assim, só por gentileza. E nesse assim, aprendi algumas lições com essa amizade.

Aprendi que gentilezas são gentis. Elas não pedem nada. Não olham sua cor, seu sexo, sua posição social, sua religião. Gentilezas só precisam se dar ao trabalho de serem gentis. E, sendo gentis, nos fazem melhor do que aquilo que achávamos que éramos. Porque diante delas ficamos parados, perplexos, de boca aberta e olhos arregalados enquanto pensamos que talvez a gente não fizesse pelo outro aquilo que ele esta fazendo por nós. E é nessa hora que sorrimos de volta, é nessa hora que elevamos um degrau no amadurecimento daquilo que entendemos sobre amar ao próximo.

Aprendi que amizades nem sempre vem de amigos. Afinal de contas, alguém não precisa ser tão íntimo de você há 10 anos, conhecer sua família inteira e te xingar ao invés de chamar pelo nome para poder enfim se importar e cuidar de você, para poder enfim ser chamado de amigo. Amigo é aquela pessoa que podemos contar, que nos olha sorrindo, que nos quer tão bem quanto quer a si mesmo. Amigo é quase um estado de espírito.

Aprendi que às vezes esquecemos os que já são esquecidos. Porque aqueles que esquecemos, aqueles que quando andamos na rua não vemos, eles nos veem... eles não nos esquecem... Eles estão ali varrendo nosso chão, tirando nosso lixo, entregando nossas comidas e fazendo nossos fretes. Estão ali da mesma forma que nós estamos aqui, lutando. Mas algumas vezes eles estão melhores, já que podem ver o sol com mais frequência e fazer amigos com menos medos.

Aprendi mais. Aprendi que só esquecemos quem queremos esquecer!

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