RACISMO NOS JOGOS DE DIREITO

Faculdades, vocês estão fazendo isso errado!

Nessa semana os casos de racismo registrados nos Jogos Jurídicos Estaduais de 2018 marcaram as redes sociais de indignação. O evento, realizado entre os cursos de Direito das maiores universidades do Estado do Rio de Janeiro, foi palco de três episódios de injurias raciais cometidas por alunos da PUC-RIO contra alunos da UCP e UERJ. Enquanto uma casca de banana era lançada na direção de uma atleta negra e torcedores (alunos) imitavam macacos em afronta a torcida adversária, inclusive verbalizando o termo “macaca”, nossa sociedade era confrontada mais uma vez.

Se alguém ainda não conseguiu compreender a proporção do absurdo que esse fato levanta, vamos refletir sobre alguns pontos dessa história.

O primeiro e mais angustiante de todos está no detalhe, nesse mínimo detalhe, chamado Curso de Direito. O racismo não partiu de um local comum, não nasceu onde esperávamos que nascesse, nasceu onde sonhávamos que ele fosse morrer. Porque caros amigos, para que serve o curso de direito? Para promover à ética e a justiça, fazendo do estabelecimento da ordem através da lei uma maneira de equilibrar e manter a sociedade saudável e coesa? Para lutar por aqueles que precisam de voz e vez? Para prender e punir quem ameaça o bem coletivo? Não, não serve. O curso de direito tem servido para formar pessoas cada vez mais voltadas aos interesses de uma classe que oprime, segrega e criminaliza o negro.

Eu não sei se você sabe, mas esses estudantes, esses que gritavam macaca, que jogavam cascas de banana, eles serão os futuros advogados e juízes do nosso país. São eles o “futuro da nação”.

O segundo ponto e mais preocupante é que os jogos jurídicos não revelaram a realidade do curso de direito da PUC-RIO, revelaram a triste realidade das universidades brasileiras. Revelaram todo um sistema de segregação existente na educação, onde o negro está à margem do conhecimento científico, a margem de qualquer possibilidade de ser inserido na sociedade como profissional altamente qualificado. Aos negros, deixamos os cursos técnicos, a evasão escolar, as aulas interrompidas por tiroteios, o FIES, as bolsas em universidades privadas. Aos que não são negros, e principalmente aos que não são pobres, deixamos as faculdades PÚBLICAS, as pesquisas, a incoerência de gritar macaca contra uma colega.

E nesse combo que envolve as universidades, ficam considerações ainda maiores sobre a ideologia que cerca as bases da nossa educação. Vale a pena pensar nos trotes absurdos que alunos são submetidos no ingresso a faculdade, na baixa taxa de professores e reitores negros, no quanto a bibliografia universitária é formada por autores brancos, nas músicas que fazem apologia a crimes contra a mulher, ao negro e os mais pobres, na dimensão vazia de saúde e coletividade que os grupos esportivos cultivam e na ideia errada de brasileiro, de pessoa, que as universidades públicas vem criando ao longo do tempo.

O terceiro ponto, que é sem dúvidas o mais triste de todos, é que esses alunos, esses brasileiros, mostraram um pensamento social, uma voz coletiva de um país que vem aos poucos, quase que em câmara lenta, tentando fazer outros gritos também serem ouvidos. Gritos que não cantam o quanto odiamos nossa própria cultura, nossa própria gente.

Não é o curso de direito da PUC-RIO que é racista. O nosso país é racista. O nosso povo, que tem mais da metade de sua população negra, é racista. Um racismo histórico, fruto de uma escravidão que acabou há apenas 130 anos e ainda é vivida em proporções menores, todos os dias, quando fazemos da nossa mente a senzala do corpo.

As faculdades, que muitas vezes neglicenciam esses comportamentos tendo em vista a posição social dos pais dos seus alunos, deixo a certeza de que vocês estão fazendo isso errado. Não é assim que se formam profissionais éticos e críticos. Vocês estão formando apenas números.

Aos alunos racistas, que não serão presos ou expulsos de sua universidade pelo crime que cometeram, que não sofrerão as penas da lei pelas quais eles deveriam lutar, deixo meu sentimento de solidariedade. É que quem não consegue entender nem o próprio curso que estuda, merece pena.

Links Interessantes:
O caso da PUC Rio e a necessidade constante de combate ao racismo (por Carla Zanella)
PUC-Rio é acusada de racismo após jogos universitários de Direito
PUC-Rio teve pelo menos cinco casos de racismo em cinco meses
PUC-Rio é banida dos Jogos Jurídicos após casos de racismo
MULHER NEGRA E ACADÊMICA, SIM!!! - Maquia e Fala #8
JOGOS UNIVERSITÁRIOS: OLHA NO QUE DEU - JOUT JOUT

3 comentários sobre “RACISMO NOS JOGOS DE DIREITO”

  1. Texto maravilhoso! Infelizmente esse câncer do racismo ainda existe nos dias de hoje. Como pode, depois de tanto tempo, ver brasileiros sendo chamados de macaco. Dói muito, a ponto de sentir ódio de quem comete esse tipo de crime, que hoje está mais comum do que se pode imaginar. Uma universidade tão renomada, cujo a religião que a rege deveria estar tomando providências, no entanto parece estar omissa, pois até agora não tem um pronunciamento se quer dos seus líderes formadores de opinião. Enfim, Brasil que chora por esse fato horrível. Como sempre digo: Brasil, um país que não é de todos.

    1. Obrigada, que bom que gostou!!
      É verdade! Eu nem quis mencionar a questão religiosa da PUC-RIO. Acho que por si só o texto vai levando a gente refletir sobre isso. O que faz esse crime doer ainda mais… Mas, infelizmente, com essa onda conservadora o preconceito, seja ele qual for, está cada dia mais vivo e cabe a nós combatê-lo, não é?
      Amei sua frase sobre o país, vou usá-la kkk!

      1. Pois fique a vontade para trabalhar com minha frase rs. Mais uma vez parabéns pelo seu lindo trabalho, Tamires.

Deixe uma resposta