CASOS DE ASSÉDIO NA COPA

Brasil mostra tua cara!

“Somos pais de família, trabalhadores e vocês estão acabando com a vida da gente… Quem está brincando carnaval exagera um pouquinho na bebida e às vezes passa do ponto. Peço desculpas às mulheres que possam ter se sentido ofendidas, mas estão transformando um copo d’água em uma tempestade”, disse ele, que é dono de uma empresa de engenharia civil no Piauí”

Após uma semana do início da Copa do Mundo 2018, nosso amado Brasil começa a mostrar para que veio. Mas, não se enganem! Os gols de hoje não garantem que esse desempenho todo foi em campo.

Dois casos de assédio envolvendo brasileiros durante entrevistas e transmissões russas no maior evento de futebol do mundo, ganharam as redes sociais poucas horas depois de sua divulgação. Nelas, brasileiros cantam “músicas” ofensivas, referindo-se ao órgão sexual feminino, enquanto as repórteres – russas – riem e se divertem, acreditando estarem participando de uma comemoração saudável.

Cá pra nós, sejamos francos: nada naquele vídeo foi diferente daquilo que vemos todos os dias por aqui. Os homens são machistas, da mesma forma que muitas mulheres ainda são machistas, porque a sociedade brasileira é machista. Sabe aquelas frases engraçadas, tipo “mulher no volante, perigo constante”? Sabe aqueles beijos roubados a força nos blocos de carnaval? Sabe aquelas investidas agressivas em boates? Sabe aquelas crises de ciúmes por conta de suas roupas e seus amigos homens? Sabe aquela diferença de salário entre supervisores e supervisoras? Sabe quando ele diz que ninguém vai te querer se você largá-lo? Sabe aquela voz que fala mais alto que a sua em rodas de conversa para que a dele seja ouvida e a sua não? Sabe aquela desculpa tosca de “TPM” quando você mostra não gostar de algo? Sabe sobre o caso de Eloá, assassinada pelo namorado que não aceitou o fim do relacionamento? Então, B* Rosa é só a pontinha do iceberg.

Cada uma dessas ações e atitudes, cada um desses pensamentos, nasce de uma classe média totalmente desconexa da realidade. Classe essa que acredita possuir um status muito diferente daquele que de fato exibe. Em nosso país, completamente dominado pela desigualdade social, qualquer vestígio mínimo de ascensão financeira representa motivos necessários para injuriar e diminuir aqueles que se encontram fora de seus padrões elitistas e religiosos, fora de seus padrões hipócritas de vida. Nessa lógica, vemos senhores agindo como adolescentes inconsequentes, vemos homens agindo como meninos.

O mais perturbador de todo esse caso, foi perceber que em meio a muitos gritos de denuncia e repúdio, algumas vozes ainda tiveram coragem de falar bobagens. Nas mesmas redes sociais que se comoveram frente aos crimes de machismo, homens enalteceram discursos de que se o caso fosse analisado ao contrário – com mulheres “dando em cima de homens” – não seriam classificados como assédio. Amigo, por favor! Nem vou me dar ao trabalho de terminar esse parágrafo com uma explicação. Não acho necessário, não vale o desgaste. E olha, não estou escrevendo assim porque estou de TPM. Só estou indignada mesmo. Vai que alguém pensa isso, né?

No fim, foi impactante ver aquela mulher russa sorrindo e cantando, sendo alegre e simpática, enquanto na verdade era exposta ao ridículo, era humilhada. Não era ela um retrato fiel das muitas mulheres que são assediadas todos os dias, sem se darem conta? Essa foi, sem dúvidas, uma das metáforas mais tristes que já vi.

O lado bom de toda essa história foi perceber que temas como esse não passam mais em branco. São, e precisam ser, amplamente discutidos, analisados e conversados. Conversados com nossos adultos e com nossas crianças. Repensados por diversos ângulos diferentes. Precisam ser resignificados, reinterpretados. Quem sabe assim, a sensação azeda do machismo deixe de amargar a boca.

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