OS MENINOS DA CAVERNA

“Estou bem, mas aqui faz um pouco de frio.”

No início dessa semana o resgate de 12 meninos e seu treinador foi destaque em todos os jornais, sites e conversas de bar que conhecemos. Um grupo de jogadores de futebol do time Javali, ficou preso em uma caverna na Tailândia durante um passeio de bicicleta. Os meninos, que se abrigaram do mau tempo na caverna, não conseguiram sair por conta das grandes chuvas e consequentes enchentes que inundaram o local.

Ao todo foram 17 dias de confinamento, nove deles totalmente sozinhos, sem apoio, luz ou expectativa de serem encontrados. A turma era formada por crianças e adolescestes que variavam entre 11 e 17 anos, e o treinador, mais velho entre eles, possuía apenas vinte e cinco.

Com uma história emocionante, um dos pontos mais marcantes da sobrevivência dos rapazes esteve diretamente ligado ao equilíbrio da mente. O treinador, que de acordo com alguns sites possuía conhecimento sobre meditação, ensinou os pequenos a prática e, assim, reforçou o poder da força mental e a maneira como ela tua na forma como encaramos os desafios e as dificuldades. A questão cultural foi, sem dúvida, um dos marcos chave nessa rotina de permanência que as crianças desenvolveram dentro da caverna e trazem muitos questionamentos sobre como seria nosso comportamento lá, levando em conta essas mesmas questões culturais.

Charge de Orlandeli.

 

O mais irônico de todo esse processo de encontro e resgate, foi perceber um fio condutor tímido entre a caverna da Tailândia e as cidades russas: o futebol! Enquanto a Copa Mundo movia todos em direção à taça dourada, a glória do triunfo, a relação estritamente comercial entre jogadores e vitórias; do outro lado da ponte ficava um pequeno time de interior, antes completamente desconhecido, movido pela raiz dessa paixão ao esporte, que uniu tão igualmente o mundo, em uma causa com certeza mais importante e humana. Foi engraçado ver o futebol sendo um e sendo dois, sendo o mesmo e ainda assim sendo tão diferente. Foi como ver ser nascimento simples e olhá-lo depois, com calma, crescido, ganhando a vida.

E assim, no meio de todos esses devaneios, o mais comum deles, o mais impossível de negar, está na relação entre a caverna da Tailândia e o mito da caverna de Platão. Para o filósofo grego o mito da caverna “consiste na tentativa de explicar a condição de ignorância em que vivem os seres humanos e o que seria necessário para atingir o verdadeiro “mundo real”, baseado na razão acima dos sentidos”*. Levando em conta as devidas proporções, a caverna da Tailândia nos faz ver o quanto estamos presos nas cavernas existenciais dos nossos dias. Sejam as nossas ou as dos outros, as políticas ou as religiosas, as morais ou as que deturpam a anarquia. Estamos presos e mesmo vendo a saída, algumas vezes, decidimos ficar.

Nessa loucura toda que foi o desaparecimento e resgate desse grupo, a ideia de que as coisas simplesmente acontecem sem o nosso controle, deixou bem clara a fragilidade da vida. Mas, ver nascer em meio a essa fragilidade toda, a comunhão entre diferentes nações, foi bonito. Somos realmente mais fortes juntos. Somos realmente um. Somos todos meninos tentando ser homens. Estamos todos em alguma caverna, tentando sair, tentando sobreviver!


*Retirado do site Significados.


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