VAGAS PREFERENCIAIS

Sobre nosso lugar no mundo, sobre nosso lugar nos outros.

Deveria soar de forma estranha, desconexa, absurda; mas é real, corriqueira, humana. A forma como lidamos com o nosso dever e o direito do outro.

Eu estou sempre em contato com um estacionamento de vagas preferenciais, todos os dias passo por ele. E, nesses mesmos dias, vejo a cena se repetir: pessoas que não precisam delas, que são altamente saudáveis para caminhar distancias maiores e igualmente cidadãos, como cada um de nós é – exceto quando consideramos a questão financeira – usando vagas preferenciais que não precisam. Usando espaços que não são seus, aproveitando direitos que não possuem. Tudo isso em nome do famoso “jeitinho”.

Lembro da primeira vez que vi alguém fazendo isso. Tive uma reação perplexa. Fiquei estática, parada, olhando e esperando que sozinho, apenas com a mensagem que meus olhares afiados transmitiam, meu caro amigo se tocaria e sairia de lá. Porém, isso não aconteceu. Recebi de volta um sorriso amarelo de bom dia. Na segunda vez, já sabendo da possibilidade dos fatos, decidi ser mais educada e um dos meus amigos, cumprindo seu trabalho inclusive, disse gentilmente “amigão, aqui é proibido. Só pra idosos e deficientes.” Responderam algo em torno de: “Eu sei, é que não tinha outra vaga, preciso dessa!”. Tinham muitas outras vagas... Nas outras vezes que vi, me envergonho da postura que tomei. Não reclamei mais, não olhei afiado, só aceitei a falta de compaixão humana e, nessa falta, me permiti olhar a educação e a empatia, mabas escorrendo leve pelos dedos, pelos medos.

É que nessa história toda de vagas preferenciais entendi uma coisa muito importante sobre a vida e sobre as relações. Entendi que nem todos sabem em qual lugar devem estar no mundo, qual espaço nessa terra de meu Deus lhes cabe de fato, qual vaga nessa vida é realmente deles. Algumas pessoas simplesmente não sabem. E assim, ficam por aí, dando murros em pontas de facas, buscando caberem em espaços menores que seus corpos e suas mentes, ou então, tentando alargar o ser que possuem para assim preencher grandes salões... existenciais. Algumas pessoas simplesmente não sabem.

Essa procura angustiante por um lugar faz com que a gente fique por aqui mesmo, onde o carro pare mais perto. Já perdi as contas de quantos tratores tentei estacionar em vagas de fusca. De quantos fuscas coloquei em vagas de tratores. Algumas vezes, inclusive, parei em vagas preferencias que a vida mostra; acreditei que nelas estaria segura, estaria em um lugar que poderia passar a ser meu, mesmo que por hora não fosse. Essas vagas podem ser tantas, estacionamentos inúmeros. Paradas quase que obrigatórias. Estacionei errado em pessoas, em empregos, em grupos, em sonhos. Essas vagas podem ser tantas.

Espero que eu aprenda a estacionar nas minhas próprias vagas ao longo da vida e que não me falte o ânimo de ajudar o outro quando esquecem que não podem parar em lugares que não lhes cabem. Seja em mim mesma ou nas vagas preferencias, cada um possui seu próprio espaço.

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