MACABEA

Sobre devaneios e cachorros!

Depois de anos ouvindo que eu deveria ler Clarisse Lispector resolvi ir além das crônicas e comecei pelo seu mais famoso livro, A hora da estrela. E, confesso, a leitura é difícil.

Talvez seja por conta da profundidade dos sentimentos que a autora traz, das filosofias escondidas nas palavras, do mistíssimo dos detalhes, das reflexões sobre “ser”. Precisei reler algumas páginas diversas vezes até acreditar ter compreendido por completo a mensagem. No fim, estava mergulhada, entregue, completamente submersa em Macabea... aquela protagonista que nada tinha de especial, nada tinha de inspirador.

Ela era absurdamente comum. Era um ser que nem sabia que era alguém. Sequer desconfiava existir. Vivia sem pensar sobre viver, sem criticar a vida, sem perguntar nada ao mundo. Ela apenas era qualquer coisa que achavam que ela era.

Algumas pessoas são por natureza encantadoras. De alguma forma, desconhecida e ilógica, elas exalam uma beleza que nem sempre é física, mas é intensa, é viva, é delas. E, todo esse mistério, as tornam simplesmente inesquecíveis e amadas. Acontece que nem todos são assim tão seus para serem dos outros... Assim como Macabea não era dela mesma...

Dias depois de terminar o livro, na casa da minha tia Leni, encontrei com Chumbreca, a cachorrinha que ela cria e, de súbito, vi na pequena Macabea. Eu não tinha dúvidas, aquela cachorra com um nome tão banal quanto à vida que tinha, não poderia ser outra se não a própria protagonista, viva e respirando, bem do meu lado. Ambas, existindo por existir. Chumbreca não era daqueles animais fortes, alegres, que brincam e brigam com a mesma força. Ela aceitava tudo; sempre ali, disponível; sempre ali, inexpressiva; sempre assim, Macabea.

Parecia loucura total da minha parte comparar a pessoa criada por Clarisse com a cachorra criada pela minha Tia. Parecia uma loucura maior ainda não compará-las. O comum é tão esperado que algumas vezes simplesmente não o observamos mais. Fiquei um bom tempo olhando para Chumbreca, imaginando estar olhando para Macabea.

Tudo isso me fez pensar nas pessoas que não pensam sobre a vida, nas pessoas que nem sequer conhecem Macabea e que nunca irão ver em Chumbreca um pouco de Clarisse. Talvez seja mais fácil não pensar sobre tudo... quem sabe seja menos dolorido. As feridas existências, que muitas vezes não são nossas, são sociais, machucam. Uma amiga me disse que “a alienação é uma benção”. Será? Não sei. Perguntar quem se é faz parte dessas feridas todas. Pra mim, a resposta foi libertadora. Enquanto que para muitos, nem sequer existe prisão.

Que questões Clarisse me trouxe, que questões...

No fim, quem sou eu? Talvez Macabea depois da cartomante!


Na imagem, a personagem Macabea em uma cena do Filme A Hora da Estrela, inspirado no livro de Clarisse Lispector.


 

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