A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER

Milan Kundera

"O seu drama não era o do peso, mas o da leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser."

“Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está a nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?”

Algumas vezes é preciso encarar as verdades incômodas da vida e desfazer muitas construções pessoais, sobre nós mesmos e sobre o mundo. É dentro desse panorama que a obra de Milan Kundera se apresenta como um farol aos nossos barcos sem destino, nos fazendo ir fundo na nossa compreensão em relação a maneira como vemos a vida, como podemos senti-la e experimentá-la, como aceitamos a forma com que o outro faz o mesmo. Ouso dizer que a experiência desse livro não é de leitura, mas de encontro.

O livro é dividido em capítulos que são chamados de partes, dentro de cada parte a história é ainda cortada em pequenas estruturas numeradas. No inicio da primeira o autor já começa seu romance falando sobre as questões filosóficas e políticas em que a trama está inserida. Depois, ao longo do desenvolvimento, dá vozes aos personagens alternadamente, trabalhando em cada parte um deles, fazendo com que as narrativas se cruzem e fluam de maneira única, embora separada. Esse método parece confuso a principio, força o leitor a compreender os sentimentos e ações, mas do que simplesmente decorar o enredo. É genial!

Em sua trama, Kundera conta a vida de quatro personagens. Tomas, Tereza, Sabina e Franz desenrolam uma história que constrói pontes e elos o tempo todo e trabalha, a luz de seus romances, a relações que estabelecemos na vida e as relações que a vida estabelece em nós. O livro se passa na cidade de Praga, na década de 60 e faz um recorte político para falar de amor, quando trabalha o envolvimento afetivo dos personagens frente a invasão Russa à Tchecoslováquia.

Em uma narrativa que nos embriaga de conhecimento e realismo, o texto de Milan trabalha a filosofia como eixo central de sua história, fazendo dela o fio condutor da forma como os personagens se veem e veem a vida, da maneira singular e comum com que enfrentam seus fantasmas e seus desejos. Nesse sentido, o narrador se torna como que uma voz da consciência, a descrever os passos não só pelos caminhos que percorrem, mas pelas intenções de fazê-los.

A temática da Leveza e do Peso é o ponto que mais se destaca ao longo de todo o livro. Trabalhada principalmente na personagem Teresa, o autor busca perguntar qual a melhor maneira de ser viver a vida: encarando-a com pensamentos ou olhando-a com sentimentos. Baseado no filósofo grego Parmênides, a ideia traz o conceito da presença e da ausência de identidade. Assim, o frio não é frio, é ausência de calor, é o não-calor. A leveza não é leveza, é ausência de peso. Em uma perspectiva existencialista, a leveza é liberdade, o peso é não vivê-la.

Toda essa complexidade e intensidade é uma marca nas obras do autor, elevada a máxima potência nessa obra. Milan Kundera, nasceu em 1929 na antiga Checoslováquia, enfrentou o governo diante de suas ideias consideras subversivas – consequência de sua associação politica comunista – e publicou diversas obras em que trabalhou as mesmas temáticas de formas diferentes e intrínsecas, como em A Brincadeira e a A Valsa dos Adeus.

Publicado entre o fim da década de 70 e início de 80, na atual República Checa, A Insustentável Leveza do Ser foi um sucesso de vendas e ganhou as telas em 1987, sob a direção de Philip Kaufman. O filme não conquistou tanto assim a crítica. A quem diga que a ideia confusa dos capítulos tenha sugado a essência da obra. Mas em minha humilde e pequena análise, o trabalho de construção dos personagens, figurino, intenção e principalmente olhares e sentimentos, me transportaram a Praga e a Teresa da mesma forma em que imaginei seu rosto enquanto lia.

No fim, sou mesmo apaixonada por esse autor e principalmente por essa obra. Talvez porque me lembre de certa forma Clarice Lispector e sua filosofia afiada e humana, porque me transporte a Chico Buarque em Budapeste e sua narrativa doce, porque me leve a mim mesma em meio a questionamentos e sonhos de ser leve e ainda sim ter pesos. Talvez porque Milan faça isso com a gente, nos faça gente!

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