FABRÍCIO E SUA MISSÃO DE MATAR A FOME

Membro da igreja CEI, conta sobre seu projeto social, o Restaurante Graça!

Um dos pastores da Igreja CEI (Centro Evangelístico Internacional) de Cabo Frio, Fabrício Valladares, vem erguendo ao longo dos últimos anos um trabalho difícil e precioso na busca da ressocialização de moradores em situação de rua na nossa região. Fundador do Restaurante Graça, Fabrício realiza diversas ações voltadas a uma linda e necessária missão: fazer crescer o amor entre os homens.

No mês de agosto, nosso site fala da interação com o outro, da forma como nos colocamos nas relações e no mundo. Para isso, repensamos posturas, hábitos e nos perguntamos “Quem é o meu próximo?”. Vamos conferir essa resposta e, muitas outras, em uma conversa sincera e emocionante sobre justiça social!

1)Fabrício, soubemos do seu trabalho com moradores em situação de rua na Igreja CEI de Cabo Frio. Mas, gostaríamos de saber: no que exatamente consiste o projeto?
O Restaurante Graça tem como prioridade, a finalidade dele, é matar a fome de quem precisa. Em
qualquer circunstância, qualquer religião. Não temo muitas exigências para se participar desse projeto. Então, a prioridade, a finalidade dele, é matar a fome de qualquer pessoa, de qualquer etnia, qualquer religião, em qualquer estado, em qualquer situação, que tenha nesse restaurante um local onde ela possa matar sua fome.

2)Como e quando ele surgiu?
Há mais ou menos 14 anos atrás eu estava fazendo uma missão em que eu passei necessidades, eu passei dificuldades e, eu lembro como se fosse hoje, eu fiz um voto a Deus. Nesse voto eu disse que se saísse dessa situação a qual estava vivendo eu iria fazer um projeto para matar a fome de pessoas. Esse projeto eu só consegui colocar em prática a mais ou menos uns três anos atrás aqui na instituição do CEI de Cabo Frio; quando eu estava almoçando – era aniversário do meu pai – a mesa farta e eu me lembrei do voto que eu tinha feito. Então, eu peguei o primeiro andar da igreja, que é situada na avenida Teixeira e Souza, um prédio de uma igreja bem bonita, eu peguei o primeiro andar e eu fiz um – quando eu falo eu, digo uma equipe, né – nós fizemos um restaurante pra colocar em prática esse voto que eu fiz que era de matar a fome das pessoas, de todo mundo que precise saciar sua fome. Então, ele nasce disso, começa com um voto de um momento difícil que eu passei e três anos atrás eu coloquei em prática aqui na avenida Teixeira e Souza.

3)De onde nasceu a necessidade de sua criação? Quais sentimentos te impulsionaram?
O meu sentimento por justiça social, ele praticamente domina o meu coração. Eu entendi essa missão na minha vida. Em todos os meus passos, desde menino ainda, muito menino, eu sempre fui muito incomodado ao ver a miséria, a pobreza humana. Ainda quando eu andava com meu pai, bem menino, eu observava moradores em situação de rua, crianças pedintes nos sinais, essas cenas sempre me deixaram muito incomodado. Sempre percebi isso dentro de mim ainda muito novo. Esse sentimento de dor com a injustiça, com a miséria, com pessoas desprovidas, pessoas abandonadas, sempre me fez muito mal. Então, assim, desde muito novo eu sempre tive essa compaixão. Na escola, eu sempre fui muito compassivo, misericordioso com os mais pobres, os colegas mais pobres; eu sempre quis ter os mais pobres perto de mim. Acho que isso é a missão da minha vida. Então, por qual motivo você faz isso? É desejo de justiça social, de diminuir as desigualdades, de atender as pessoas abandonadas, isso é muito forte dentro de mim.

Moradores em situação de rua alimentam-se no Restaurante Graça.

4)Como funciona a dinâmica do projeto? Os moradores precisam realizar algum tipo de cadastro para receber as refeições ou apenas se apresentar na sede da Igreja?
O projeto é muito bem organizado. Nós temos uma base de aproximadamente 60 voluntários que
trabalham na limpeza, trabalham na cozinha, no atendimento. Nós temos ainda muitos parceiros. Parceiros em todos os aspectos profissionais, que sempre estão conosco favorecendo o funcionamento desse projeto. Não é necessário fazer um cadastro. Tem fome? Se apresenta, que vai se alimentar. A gente até faz um vínculo após, tem um cadastro, a gente cria um vínculo, mas esse vínculo de cadastro é o menos importante, nós desejamos mesmo é criar um vínculo afetuoso. Queremos estreitar relacionamentos, aproximar, gerar carinho. Porque essas pessoas são muito rejeitadas, elas têm uma aversão muito grande à sociedade, elas se sentem abandonadas. Então, a gente tenta reconstruir esse laço de confiança para que elas se sintam amadas. Esse vínculo é o mais importante, apesar de termos também cadastros importantes. Mas, ressaltando que o mais importante é o vínculo sentimental.

5)De onde vêm os fundos (financeiros e humanos) que mantem o projeto funcionando?
O Restaurante Graça não tem hoje nenhum apoio político, ele é apolítico. Ele é sustentado por voluntários, por alguns parceiros, supermercados, muitas escolas que fazem eventos doam alimentos dentro da cidade. Uma coisa que eu gostaria de deixar claro é que o Restaurante Graça é mantido por todas as religiões. Católicos, espíritas, ateus; pessoas de todos os credos ajudam a manter esse restaurante. Que é uma carga pesada, a gente alimenta hoje de 120, 130, 150 pessoas diariamente, né. E, sempre comida fresquinha, comida feita no dia, na hora; carne todos os dias. Então assim, nós temos alguns parceiros, mas não temos nenhuma ajuda do Estado, do governo, nenhuma, zero, apenas parceiros. Supermercados, profissionais, pessoas da igreja, empresários, a gente recebe muito apoio e muita doação.

6)Qual o seu principal objetivo na realização desse trabalho?
O principal objetivo é que ninguém na minha cidade, ninguém, ninguém, passe fome. Qualquer criança, idoso, que tiver ao alcance não tenha fome, não tenha. A gente tem o cuidado, temos alguns lá que a gente averigua, a pessoa almoça conosco e até leva quentinha para comer a noite, a gente não quer que ninguém tenha fome. Então assim, esse é o principal objetivo: não haver fome na nossa cidade. O segundo objetivo é a ressocialização. É muito difícil ressocializar alguém que não confia, que não tem vínculo afetivo. Então, através do Restaurante a gente cria esse vínculo, impulsionando-os para uma ressocialização, para que eles não passem a vida toda na miséria, para que a gente consiga de alguma forma tirá-los dessa situação. O Restaurante Graça não é um assistencialismo barato, pelo contrário, o Restaurante Graça tem um objetivo claro, que é ressocializar as pessoas, tirá-las da margem da miséria.

Interior do Restaurante e uma de suas voluntárias.

7)Vocês trabalham a questão religiosa em conjunto com a assistencial?
O proselitismo (catequese, apostolado) não é a prioridade. Nós sim, de forma clara, nós somos uma igreja evangélica, então, o nosso discurso é de reconciliação. Mostrar para essas pessoas que eles não foram abandonados e de que eles são amados e, que apesar de tudo que eles passam, aquele Restaurante ali é uma prova do amor de Deus para com eles, para que não cresça mais a revolta. Ninguém revoltado consegue passar de fase, ninguém revoltado, rejeitado, consegue se ressocializar se vincular a outros. Então, a gente tenta através do Restaurante Graça mostrar para eles que esse restaurante é uma prova do amor e do cuidado de Deus para com eles. Eles são amados e por isso nós estamos ali para poder saciar a fome deles, abraça-los e muitas outras cosias que também são feitas por eles ali. Então assim, a gente sim, apresenta o amor de Deus, a gente fala o que é o amor de Deus para que eles se sintam amados e preenchidos. Porém, não é proselitismo, a gente não obriga ninguém a se vincular a nossa igreja, ninguém precisa mudar sua religião porque almoça conosco, não, não é esse o objetivo, mas, nós sim falamos do amor de Deus por eles ali, principalmente por Jesus.

8)Como você vê essa relação entre Deus e as necessidades humanas básicas? Entre a religião e a manutenção dos problemas sociais?
Minha querida Tamires, eu acredito, através da bíblia que leio – desde menino tenho contato com a bíblia – de que a igreja de Cristo na Terra ela é responsável por promover a justiça social. A igreja é a resposta de Deus para a miséria humana. Então, esses homens precisam enxergar em nós o amor de Deus para eles. Então, quando a gente alimenta a fome, quando a gente calça o descalço, quando a gente abriga o desabrigado e muita outras coisas necessárias, nós revelamos o amor de Deus. Então, esse é o papel da igreja, no meu ponto de vista é sim o papel da igreja promover a justiça social. Nós revelamos a amor de Deus a esses homens, que muitos deles se sentem esquecidos por Deus. E na verdade são esquecidos por nós. Somos nós que abandonamos os nossos irmãos, somos nós que abandonamos os pobres. E a igreja tem como premissa diminuir essa injustiça, provando o amor de Deus através de nós.

9)Você acredita que sua ação por si só é capaz de transformar a vida dessas pessoas ou sente que o Estado deveria atuar de alguma maneira para que isso de fato aconteça?
Olha, minha querida, se o Estado fizesse o papel dele, cumprisse o papel dele, a igreja não precisaria promover ações como essa. Mas, desde a época de Cristo, como está registrado em Atos 2, no livro da bíblia, onde os apóstolos pediram aos cristãos, na primeira igreja, para que vendessem suas propriedades e distribuíssem aos apóstolos e os apóstolos promoveram a maior reforma social da história, quando através dessa oferta de todos os cristãos da primeira igreja, do primeiro século, esse dinheiro foi usado para matar a fome na Judeia – foi um dos motivos de profunda perseguição do Império Romano a igreja, porque a igreja começou a crescer em popularidade, cair na graça do povo. Isso era uma ofensa ao Império Romano. Então, o Estado não faz o papel dele desde sua existência, então sobra para a igreja esse papel, que é diminuir a dor humana. Mas, se o Estado cumprisse seu papel não seria necessário a igreja fazê-lo. Nós só fazemos porque o Estado não faz, é omisso.

Em iniciativas paralelas, a equipe leva os moradores em situação de rua ao cinema, no Shopping.

10)Dentro do seu ponto de vista, qual o principal motivo para que as pessoas passem a morar nas ruas? E qual o perfil desse morador? Você acredita que a questão racial está relacionada de alguma forma?
As pessoas moram na rua por dois principais motivos. O primeiro deles é por uma má administração da própria vida, é o primeiro motivo deles morarem lá; por não saberem administrar a bebida, por não saberem administrar a droga, por não saberem administrar os ímpetos, o temperamento e com isso eles, por má administração, foram parar nas ruas. O segundo motivo é por falta de oportunidade. Muitos deles são nordestinos, que vieram tentar a vida aqui no Estado do Rio de Janeiro e não conseguiram subsistir, falta de oportunidade, muitos não tiveram estudos, não tiveram condições. A gente não pode dizer que estão ali só por meritocracia, porque merecem, não, não. Muitos estão ali, loucos para saírem das ruas, esperando uma oportunidade que cada dia se torna mais difícil. Eu acredito Tamires, que todo o ser humano merece sempre mais uma chance, mais uma oportunidade, mesmo que ele já tenha decepcionado algumas vezes, todo o ser humano sempre merece mais uma chance. Eu acho que não é nada louvável e nem humano a gente desistir das pessoas, tem que sempre acreditar. Então, esse tem sido o nosso papel, nós temos construído um vínculo ali com eles, de amor, temos conseguido amá-los, formar com eles um vínculo, uma afetividade profunda. E eu, sou testemunha viva de que esses seres humanos merecem uma nova chance.

11)Você deve ter ouvido muitas histórias ao longo desse tempo de projeto. Qual delas mais te impactou?
Eu já ouvi muitas histórias, são histórias fascinantes e realmente eu coleciono muitas histórias com moradores em situação de rua. Mas, eu tenho uma em particular que foi um homem que cometeu um crime porque ele pegou a esposa no ato de traição e ele assassinou a esposa. Um cara de bem, da cidade de Campos, mas ele não suportou a traição e assassinou a esposa e assassinou o amante. Ficou preso alguns anos e saiu da cadeia e foi morar nas ruas, nunca mais conseguiu se reerguer. Ficou anos na rua tentando trabalhar, tentando trabalhar e depois de muitos anos ele conheceu o Restaurante Graça. A gente começou a abraçá-lo, a amá-lo e ter um relacionamento com ele. E, eu nunca vou esquecer o dia em que ele entrou por dentro da nossa instituição, vestido com um uniforme de um posto de gasolina, com um envelope pardo, chorando, gritando, pulando, abraçando todo mundo, porque depois de muitos anos morando nas ruas, ele tinha acabado de assinar a carteira e estava trabalhando, com direito a plano de saúde, a cesta básica e esse homem estava em uma alegria muito grande, muito grande, muito grande, porque ele estava tendo oportunidade de refazer a vida dele. Então assim, de muitas histórias, essa me marcou muito.

12)Qual a maior lição que você aprendeu durante esse tempo? Quem era o Fabrício antes do projeto e quem é o Fabrício agora?
A maior lição foi que mesmo eu tendo uma casa, tendo uma família, tendo um carro, tendo o mínimo de condição financeira para patrocinar um estilo de vida muitas foram às vezes, muitas, mas muitas e muitas, em que os moradores de rua estavam mais felizes do que eu. Eu tenho aprendido que todo ser humano é muito parecido em qualquer curvatura social, aprendi que é tudo muito supérfluo, muito, muito, muito momentâneo. Então assim, a minha maior lição é essa. Não foram poucas às vezes em que eu vi mais alegria neles do que em mim, mesmo saindo do projeto e voltando para as ruas e eu voltando para uma casa. Então assim, o ser humano ele é muito previsível, ele é muito igual, ele é muito parecido, em todas as instancias, em todos os lugares do mundo. Essa é a maior lição que eu aprendo no Restaurante Graça.

Moradores em situação de rua alimentam-se no Restaurante Graça.

13)Quais são os sonhos futuros para o projeto? Como você o imagina daqui a 10 anos, por exemplo?
Bom Tamires, nós vamos inaugurar agora mais um sonho, que é o abrigo. E, nesse abrigo, nós vamos tirar da rua mais de 60 pessoas. Sempre foi um sonho também e nós vamos inaugurar agora, ainda nesse mês. A gente também acredita eu morando nas ruas, o habitar da rua, a cosmovisão da rua, precisa ser arrancado. Para você mudar alguém você tem que tirá-lo da geografia por um tempo. Então, a gente nunca consegue ressocializar alguém com ele morando debaixo da marquise. Então, algumas pessoas precisam da oportunidade de ter um lugar para dormir, de sair daquele ambiente de bebida, aquele ambiente da noite, de frio, de revolta. Então, era um passo que faltava e nós estamos realizando agora. Está ficando quase completo, acho que para ficar completo é a gente conseguir fazer com que eles se tornem independentes, tenham seu emprego, seu próprio trabalho, seu próprio dinheiro, para se manterem. Mas, o abrigo é uma grande oportunidade dada para eles também.

14)Se alguém se interessar em doar ou trabalhar no projeto, existe algum critério básico? Quem elas devem procurar?
Eu gostaria que toda pessoa que desejasse doar, porque a gente não precisa de dinheiro, não, não precisamos de dinheiro, a gente não aceita doação em dinheiro, a gente precisa que essas pessoas primeiro, venham conhecer o projeto, venham se envolver. E, de alguma forma, possa se apresentar como voluntário, trabalhar um dia conosco, se envolver. A gente aceita doações, mas a gente gostaria mesmo que a pessoa nos conhecesse, viesse participar primeiro e, depois visse a nossa necessidade real, que às vezes, nem sempre, precisamos de um quilo de alimento, nos precisamos de um voluntário. É fundamental que as pessoas que desejam nos ajudar venham conhecer um pouco e se envolver um pouco no projeto.

 

Quer saber sobre o projeto?
A Igreja CEI fica localizada na Avenida Teixeira e Souza, Nº 2600 - Cabo Frio/ RJ
(Na altura do trevo para entrada de Arraial do Cabo)
Para maiores contatos e informações, acesse a página do Fabrício Valladares no facebook.

 


Quero deixar meu agradecimento especial ao Fabrício, uma pessoa que conheço há pouco tempo, mas, sem dúvidas, já admiro muito. Seu trabalho e sua maneira generosa de ver a vida, de ver a religião, nos fazem acreditar em um mundo mais justo e mais humano. Obrigada, Fabrício!


 

1 comentário sobre “FABRÍCIO E SUA MISSÃO DE MATAR A FOME”

Deixe uma resposta