BOLSONARO ESFAQUEADO

“Nunca fiz mal a ninguém”

Se nosso cenário político parecia confuso e difícil, o episódio de violência que envolveu Jair Bolsonaro, na última quinta-feira, serviu para trazer a certeza de que dias ruins realmente já haviam chegado. O candidato à Presidência pelo PSL foi esfaqueado enquanto realizava uma caminhada de sua campanha no estado de Minas Gerais. O ato, repudiado por uns e vangloriado por outros, representou o estopim de um discurso extremista, elevado as máximas potências nas redes sociais.

Nas especulações, que tratam o assunto como uma grande jogada de marketing do candidato, a facada tem sido cada vez mais atrelada aos resultados das últimas pesquisas divulgadas - onde Jair não parecia bem colocado em possíveis confrontos com outros candidatos em um 2º turno. Essa hipótese, traz à corrida presidencial um tom de horror e desespero, um tom enojado e cruel, que faz da dor um trampolim, das pessoas marionetes maleáveis e da ideia de mártir a grande solução aos inúmeros problemas de nosso país, reduzidos e simplificados sob a tábua do discurso da corrupção. Se tudo não passou de uma grande armação talvez seja complicado teorizar ou conspirar... O que sabemos é que dói pensar nessa possibilidade como real. Como dói...

Já nas concepções que distinguem a facada como fato, o ato de violência vem sendo de forma errada atribuído as esquerdas ou simplesmente ignorado como resultado de um processo de extremismo fascista, cada dia mais vivo em nosso país. Nessa linha, saber que saímos da zona confortável da discussão de ideias e mergulhamos profundamente na violência e na intolerância, assusta. Assusta imaginar que é preciso agredir para provar, gritar para calar, matar para convencer. O ataque sofrido por Jair é abominável, triste e dolorido. Não só pelo fato em si, mas por toda a carga social que carrega. Por ser a mostra concreta de que nossa sociedade está de fato cada dia mais doente, cada dia mais intransigente.

 

Diante das muitas histórias, o que sabemos e, sabemos bem, é que o candidato sempre foi controverso. Com discursos inflamados, que ressaltavam a violência, Bolsonaro é uma figura capaz de causar sentimentos radicais em diferentes grupos. Em seus apoiadores, a ideia de indignação frente a corrupção, que se concretiza com uma legislação que apóia o porte de armas, por exemplo, gera ódio ilegítimo à diferentes minorias, como negros, mulheres e homossexuais. Por outro lado, os que são contrários a suas ideias, se vêem tomados por um sentimento de aversão à suas colocações, gerando um igual e vivo sentimento de ódio e rejeição contra ele. Bolsonaro, como elo do sentimento comum de cólera, seria então um gerador de ódio por onde passa?

O que de fato aprendemos diante de tudo isso, é que Jair é prova viva de seu aplaudido discurso de ódio, é fruto maduro de sua intolerância cultivada as largas, é espelho e eco de sua própria voz. Com uma irracional antipatia frente a ideologias políticas diferentes das suas, o candidato se viu como resposta de suas inspirações. O cidadão de bem e seu legítimo direito de defender-se , agiu da mesma forma que tantas vezes vimos o mesmo Jair incitar. Mas o dito cidadão de bem não é tão de bem assim quando realiza a façanha de fazer os donos de sua fala provarem seu próprio veneno.

No dia da independência, a democracia não levou facadas, o direito democrático não sangrou com seu candidato, a intolerância diante de opiniões políticas não chegou ao nível máximo. Atingimos a barbárie há muito tempo e ainda não tínhamos nos dado conta. Estávamos ocupados demais preocupados com nossas dores individuais, enquanto a sociedade inteira gemia. Infelizmente, assistimos sem nada fazer mortes políticas em nossos aviões, em nossos taxis, em nossas casas. Elas chegam sorrateiras, nem sempre quietas, mas na maioria das vezes disfarçadas. A grande diferença entre esse atentado e os outros é que nesse, felizmente, não houve morte. Felizmente, não era uma arma de fogo. A grande diferença entre esse atentado e os outros é que na facada de Bolsonaro foi enterrado oficialmente o respeito, morto antes, por ele próprio, em suas falas preconceituosas e desprezíveis. Afinal de contas, ele nunca fez mal a ninguém, não é mesmo?

 

Charge do site Humor Político.

 


Notas sobre o Incêndio do Museu Nacional:

  1. Museus, parques, jardins, sítios arqueológicos, prédios, expressões, celebrações, tradições populares e inúmeros outros exemplos de patrimônios, são elos que nos ligam a nossas raízes, constroem nossa “personalidade coletiva”, nossa memória social e, nos constitui como nação de um determinado lugar. Negligenciar a construção daquilo que somos é privar as próximas gerações de saberem quem são. E, quem não sabe quem é, pode ser qualquer coisa que disserem que seja. Podem ser qualquer coisa que queiram que veja.
  2. No dia que proclamamos nossa independência, olhamos para os lados e nos perguntamos qual o sentido de estar livre se a maior liberdade de todas ainda não foi alcançada. E, ela começa na mente, começa na gente... Começa na ideia de que o mundo não é meu, é nosso. E, que só existe eu, porque ainda existe nós.
  3. O incêndio que assolou o Museu Nacional, já queimava há muito tempo outros pontos de nossa história e ainda podemos sentir o calor das chamas na fala superficial e pouco intelectualizada de quem acha que o que passou, passou... Mesmo após o incêndio, mesmo após a perda, mesmo após as cinzas – que voam tristes pelo céu histórico do Rio – mesmo após tudo, ainda há o que fazer. Sempre há.
  4. Afinal de contas, um povo que não identifica seu passado é incapaz de construir um futuro. Se fosse o Louvre, sofreríamos mais!

Links sobre o tema:

Ataque a Bolsonaro: o que se sabe até agora (em imagens)

Quem é o autor do ataque a Bolsonaro

Charges sobre o tema - Humor Político

 

 

8 comentários sobre “BOLSONARO ESFAQUEADO”

  1. Olá meu nome e Jorge,meus parabéns pela escrita, mais não posso de fazer algumas observações como , em todas as entrevistas que vi e ouvi do Sr. Bolsonaro , quando perguntaram sobre gay , resposta eu sou contra a ideologia de gênero nas escolas que ensinam nossas crianças que tanto faz ser João ou Maria tudo está na mente o que a de errado nessa resposta?

    1. Boa tarde, Jorge! Que bom te ver por aqui, fico feliz que tenha gostado do texto! Essa pergunta traz muitas respostas, mas acredito que a principal delas seja relacionada ao respeito. Podemos e temos o direito de possuir opiniões e visões de mundo diferentes. Afinal de contas, democracia é isso. Mas quando essa opinião vem carregada de intolerância, preconceito e até mesmo violência, aí sim encontramos um problema. Acho que o comentário da Ana Beatriz pode ajudar muito nesse sentido!
      Deixo esses dois links sobre o tema, relacionados a algumas falas do candidato sobre o assunto. Vale a pena conferir:
      1) https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/29/politica/1535564207_054097.html
      2) http://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/Quem-tem-medo-de-falar-sobre-sexo

      Espero ter ajudado!
      Abraços!

  2. A cogitação de que foi apenas um teatro é ridícula, no cenário de liderança em que ele se encontra, não arriscaria tudo numa tentativa de ganhar mais votos. A mídia tem se posicionado contra essa tentativa de assassinato, numa desesperada forma de tentar inverter os fatos, afirmando que o autor do crime é uma pessoa que não tem mais ligações políticas, tentando inocentar essa esquerda podre, e que Bolsonaro prega a violência e “provou do seu próprio veneno”, quando na verdade ele defende a legítima defesa contra aquelas pessoas que tentam nos matar, as chamadas “vítimas da sociedade (latrocidas e assassinos)”. A todo tempo dizem que o discurso dele é facista e violento, mas na verdade o que vemos são justamente as pessoas que é contra ele praticando violência ou fazendo algo fora da lei, bando de hipócritas!! Vocês cagam e mijam na foto dele, cospem, jogam ovo e agora o esfaqueam. Ele é o fascista, e o cara que o esfaqueou é o cidadão de bem? As armas que ele defende não matam pessoas, as salvam, porque na verdade pessoas ferem pessoas, e de qualquer forma, faca, bomba caseira, seu “cidadão de bem” que escolhe. Quem quer matar mata, mas quem quer se defender não consegue, porque usar arma para se defender é fascimo. Mas utilizar uma faca para se defender dos “discursos de ódio” de alguém que tem o posicionamento contrário a sua ideologia é correto né?

    1. Não é correto o uso de violência sobre nenhum argumento. O texto deixa isso bem claro! Porém o canditado em questão discursava que a violência deveria ser combatida com mais violência. Acaba tornando contraditórios.

    1. Boa tarde, Gustavo! Todos os comentários postados por leitores não cadastrados precisam ser previamente aprovados pela adm do site, com isso nem sempre os posts aparecem na hora que são realizados. Muito obrigada por sua visita e por sua participação no texto. Abraços!

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