DANÇA DA VASSOURA

Sobre oportunidades e privilégios!

Antes de começar a escrever aqui no site, fui para um café bem conhecido aqui de Cabo Frio. Pedi um pavê crocante que eu amo e iniciei algumas anotações no meu caderno sobre as coisas que gostaria de falar, ideias soltas sobre temas e fui montando planejamentos, criando histórias, pensando até em personagens para outros tipos de textos. Comia e escrevia, naquele lugar tão gostoso de estar que a hora foi passando e eu só queria ficar ali. Confesso que me senti tão escritora naquele momento que desejei que o tempo parasse, só para eu poder aproveitar cada segundo daquela sensação.

Fui então interrompida por uma voz pedindo licença. Era uma mulher, de meia idade mais ou menos, que varria a rua. Ela puxou algumas folhas de árvore que estavam próximas do meu pé, pediu desculpas pelo incomodo e continuou pela calçada. Naquela hora parei de comer, parei de escrever. Me senti tão mal, me senti tão pequena.

Não sei explicar direito o que pensei. Só sei que senti uma vergonha danada, daquelas que se sente quando se vive algo muito bom e você acredita de alguma forma não merecer aquele presente todo da vida. Porque era exatamente isso, eu tinha recebido vários presentes da vida. E, aquela mulher varrendo a calçada, talvez não tenha recebido nenhum.

Nunca tivemos muito dinheiro, mas meus pais nunca deixaram faltar nada. Cresci cercada pelas oportunidades de aprender, buscando onde ninguém via, chances de ser melhor, maneiras de viver daquilo que eu penso, da arte que eu construo. E, olhando aquela mulher, pensei no quanto eu era privilegiada por poder ousar pensar essas coisas. Por poder ousar querer viver daquilo que amo e não só daquilo que me sustenta.

Às vezes olho algumas pessoas na rua e fico imaginando o que elas sonharam em ser, quais profissões elas verdadeiramente gostariam de seguir. Quantos músicos viraram pedreiros, quantas atrizes viraram diaristas, quantos escritores viraram lojistas. Quantos sonhos ficaram guardados na ideia racional de que a vida real precisa necessariamente ser diferente daquela que imaginamos. Não que ser pedreiro, diarista ou lojista seja ruim. Não é nada disso. Todas as profissões tem o mesmo grau de importância na dinâmica social.Eu só queria que todo mundo pudesse ter a mesma chance de sonhar, a mesma oportunidade de crescer, sem ser preciso haver privilégios, sem ser preciso haver distinções.

Assim, continuei meu doce - que agora era um pouco amargo pelo sabor nem sempre açucarado da vida. Mas, continuei alegre, continuei grata por tudo que eu tive e por tudo que eu era. Já que eu não podia mudar as realidades sociais, podia ao menos escrever sobre elas. Quem sabe assim, usando ao invés de vassouras, canetas, eu limpasse as sujeiras da alma.

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