MULHERES UNIDAS CONTRA BOLSONARO

A primavera feminina na política

O mundo há muito tempo deixou de ser visto a partir da divisão entre azul e rosa. O mundo agora é preto, é verde, é roxo. O mundo é da cor que as mulheres pintam. E, nesse processo de cores e mudanças, as vozes femininas são cada vez mais ouvidas em diferentes esferas sociais, na busca por uma relação mais justa e igualitária entre mulheres e homens, entre estado e igreja, entre direitos e obrigações. A partir de um cenário completamente novo, a primavera feminina na política tem chegado ao Brasil.

A criação do grupo “Mulheres unidas contra Bolsonaro”, na rede social Facebook, deixou ainda mais clara essa ideia. Com quase 2 milhões de membros e um crescimento alucinante por minuto, suas participantes tem reivindicado e questionado os comportamentos do candidato frente às mulheres, se unindo em um movimento apartidário, que deseja lutar pela defesa dos interesses femininos frente ao Estado. A iniciativa faz com que o uso das redes sociais no engajamento político seja elevado a máxima potência e transforma – sem a menor timidez – a rede em um lugar de diálogo e demonstração da influência da mulher na sociedade. Mais que isso, faz ser notada a voz, o desejo, a inquietação, de uma parcela que não se vê representada em seu congresso e almeja, com uma sede intensa, mudanças tão profundas quanto sua própria sede.

E, essa sede parece não ser apenas brasileira. O movimento, que dá seus primeiros passos por aqui – ainda apoiado nos móveis – foi visto nos Estados Unidos em diferentes campos, vestido de preto, saindo da arte à politica, e formando resistência diante às ações e ideias de Donald Trump. Na Argentina, a luta pela descriminalização do aborto e, pelo diálogo do tema como questão de saúde pública e não apenas moral religiosa, foi o grande estopim de uma onda verde que invadiu as ruas hermanas e deixou no ar uma esperança mais viva, de que na América, as mulheres se olham e se veem. No Brasil, a maré roxa em resistência a candidatura de Jair, trás a expectativa de que nossos olhos, assim como os americanos e argentinos, também estão abertos. Diferente da forma como estamos habituados a nos enxergar, talvez a América seja muito mais uma do que várias.

Pesquisa Datafolha de Agosto, extraída do jornal ElPaís. A mais recente, de 10/09, pode ser conferida nos links no fim do texto.

No que diz respeito à representativa feminina, o chamado lugar de fala das mulheres, na política, tem suas cadeiras ocupadas, uma a uma, todos os dias, por mães, profissionais, filhas, irmãs, esposas, amigas, pessoas, que não querem mais ceder o lugar na janela. Aqueles que podem, por direito e benção, ser donos dos próprios trens, se veem atordoados diante da possibilidade de que sejamos nós, as mulheres, os maquinistas, os trilhos ou, quem sabe, o próprio trem. A política, ponto mais alto da sociedade, é a maior vitrine de representatividade e espaço de um povo. E um povo, formado por uma maioria feminina, precisa realmente reencontrar seu lugar.

Para que esperanças não esperem, a primavera feminina na política precisa de fato florescer nas ruas e nas urnas. Precisa ganhar espaço nos locais em que acredita não caber, precisa olhar para aqueles que não a conseguem ver, precisa buscar bases sólidas e comuns, que levem as mulheres a discutir assuntos que lhe cabem. Afinal de contas, todos os assuntos lhe cabem. Ter uma presidente eleita – deposta em ações turbulentas do congresso – não garante que o Brasil seja menos machista. Ao contrário, trouxe à luz a certeza esquecida, de que podemos fazer mais.

Ver mulheres discutindo política é como ver rosas raras no campo. Mas não deveria. O mundo há muito tempo deixou de ser visto a partir da divisão entre azul e rosa. O mundo agora é preto, é verde, é roxo. O mundo é da cor que as mulheres pintam. A primavera feminina na política abre finalmente seus primeiros botões no Brasil.

Links sobre o tema:
5 DADOS SOBRE A PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES NA POLÍTICA BRASILEIRA
Pesquisa Datafolha de 10 de setembro para presidente por sexo, idade, escolaridade, renda e região
Mulheres, uma barreira para a vitória de Bolsonaro
Um milhão de mulheres contra Bolsonaro: a rejeição toma forma nas redes

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