O BRASIL DA CLÁUDIA

Professora em História do Brasil conversa sobre como anda nosso país!

Cláudia Farias é Doutora em História. Carioca, leciona desde 2004 e atualmente é professora dos cursos de graduação e pós-graduação em História da Estácio de Sá, Cabo Frio. Sempre levantando a bandeira da igualdade, é especialista em história do esporte brasileiro e nos estudos de gênero.

Pensando sobre o Brasil e, levando em conta sua grande bagagem sobre o tema, nosso site entrou em contato com a Cláudia para trazer nessa véspera de período eleitoral um olhar mais crítico e realista sobre como anda nosso país. Com ela, vamos entender quais os contextos históricos que nos trouxeram até aqui e quais ações precisam ser feitas para melhorá-lo. Com respostas fortes e embasadas, ela nos faz sair da superficialidade, deixando um gostinho bom de que essa conversa, sem dúvidas, é um grande presente!
 

1)Cláudia, como você entende o cenário político, econômico e social do Brasil hoje?
É um horizonte sombrio, de muitos retrocessos e perda de direitos, após significativos avanços sociais que o país experimentou...

2)Quais foram às causas que nos levaram a chegar nesse ponto?
Creio que o golpe de 2016 é fundamental para compreendermos este processo. Foi um golpe contra uma presidente eleita legitimamente e, portanto, contra a democracia e os direitos humanos. E ele ainda está em curso...

3)E, quais são os principais desafios desse cenário?
A sociedade civil precisa se organizar urgentemente para deter este processo... é fundamental que estudantes, partidos de esquerda, entidades de classe, movimento negro, feminista, LGBTQI+, associações de moradores, entre outros, apresentem uma pauta que possa mobilizar toda a sociedade contra este projeto neoliberal que defende as privatizações, os interesses ruralistas, a reforma da previdência, trabalhista, do ensino médio, etc..

4) Olhando para a nossa história, onde encontramos respostas para o que estamos vivendo hoje por aqui?
Creio que nossa democracia é extremamente frágil; o processo de construção da cidadania no Brasil foi marcado por avanços e recuos, marchas e contramarchas. Os períodos de autoritarismo e ditadura no país são uma marca da nossa história republicana, isto sem falarmos da nossa nefasta herança escravista e das políticas públicas de esquecimento, que contribuem para a manutenção do racismo, da desigualdade de gênero, enfim de todos os tipos de desigualdades e exclusões, fatos revelados pelos altos números de homicídios contra afrodescendentes, indígenas, mulheres, gays, travestis e transgêneros. Nossa sociedade é extremamente violenta e desigual, com alta concentração de renda e terra, e há uma forte resistência, por parte de alguns setores, em reconhecer as demandas por direitos étnicos, de gênero, entre outros, que redefinem sentimentos de pertencimento, bem como reelaboram conceitos de democracia e cidadania no tempo presente.

5) Muito se fala sobre a relação entre o desenvolvimento dos países e seu processo de colonização. Como você avalia isso se tratando do Brasil?
Como disse antes, a escravidão é uma nefasta herança. A igualdade de direitos e oportunidades para afrodescendentes, indígenas e mulheres ainda é uma realidade distante no Brasil! A República construiu novas formas de exclusão e opressão sobre estes e outros segmentos, ainda que destaquemos suas lutas, resistências e conquistas recentes. Sem falar na inúmera desigualdade regional que predomina no país, podemos falar da existência de vários “Brasis”. Ainda somos um país que olha muito para fora, infelizmente!

Cláudia e outros professores em confraternização com seus alunos no ano de 2014.

6) Ainda falando de desenvolvimento, milhares de comparações entre o Brasil e outros países são feitas a todo o momento, principalmente quando o assunto é a questão social. Você acha válida essas comparações?
Comparações são uma boa opção metodológica, mas elas podem ocultar as diferenças em nome das semelhanças. Há que se atentar para as singularidades e particularidades dos processos históricos de cada país!

7) Observamos nos últimos anos a formação de um pensamento mais conservador, principalmente nos jovens. Como você relaciona isso com a nossa situação politica, econômica e social?
Creio que o crescimento das igrejas neopentecostais, sobretudo da Igreja Universal do Reino de Deus, com sua teologia da prosperidade conjugado ao aumento das desigualdades sociais, das periferias e da forte presença desta Igreja no rádio, na televisão e na política brasileira, façam parte deste processo no país.

8) Diversos grupos da nossa sociedade vêm pedindo o retorno da intervenção/Ditadura Militar”. Onde e porque você acredita que esse desejo nasça? Você acredita que ela possa de fato acontecer?
Como eu disse anteriormente, são reflexos de políticas públicas de silêncio e esquecimento praticadas pelo Estado brasileiro, para além de revelarem os efeitos de um processo de conciliação e consenso estabelecido na época da redemocratização do país, em que pesem as demandas posteriores de diversos grupos da sociedade pelo reconhecimento dos crimes perpetrados pelo regime militar, que incluem indenizações e reparações às vitimas e a revisão da Lei da Anistia, inclusive. Contudo, esta discussão não foi ampla e esteve longe de ser patrocinada pelo Estado e pela mídia, isto sem falarmos da ausência de um acesso irrestrito às fontes documentais do período da ditadura militar! O “dever de memória” deveria ser reconhecido e defendido pelo Estado brasileiro! E toda vez que um país não revê o seu passado, pode voltar a repeti-lo! Isto explica em boa parte a dificuldade do país em aprofundar sua democracia e o acirramento de ódios, conflitos e tensões entre distintos setores da sociedade sobre este passado recente. É um processo de disputa de memórias, como disse o historiador Michael Pollak.

9) Saímos de uma Ditadura Militar há pouco tempo, enfrentamos governos complexos como o de Vargas e tivemos que lidar com ideias não muito claras de república. Como você acha que isso interfere na nossa noção de Democracia?
A democracia é uma forma de governo que necessita ser constantemente aperfeiçoada, reelaborada pelos novos atores sociais. Porém, a história da democracia, da cidadania no Brasil sempre foi complexa e tortuosa... Talvez, pudéssemos ter uma opinião pública mais sensível aos problemas do país se efetivamente houvesse uma imprensa livre no Brasil, que expressasse diferentes vertentes de pensamento político! Porém, o monopólio dos meios de comunicação no Brasil, por parte de grandes grupos econômicos, de origem familiar, foi algo que cresceu assustadoramente depois do golpe de 1964.

10) Ouvimos muito a expressão “o povo não sabe votar”. Você acredita nisso ou pensa que existe outra explicação para nossa falta de conhecimento ao eleger um político?
Acredito que a democracia é seriamente ameaçada quando não há diversidade e pluralismo nos meios de comunicação de massa num país, como no caso do Brasil... Além disso, a cidadania é uma prática, ela é fruto de um aprendizado político permanente e, no caso do Brasil, houve períodos longos em que este aprendizado foi impedido e limitado. Sobre esta fala de que “o brasileiro não sabe votar” creio que é pejorativa e revela, na verdade, um preconceito de classe; é um discurso proferido por aqueles que tiveram acesso a um ensino de qualidade e boas oportunidades sobre analfabetos e eleitores de baixa renda.... Mas se olharmos bem quem são os potenciais eleitores do Bolsonaro? Creio que são cidadãos brasileiros dos setores médios e das elites deste país. Por isso, é preciso sempre desconfiar dessas opiniões simplistas, produzidas pelo senso comum...

Cláudia prestigiando seus alunos no momento mais emocionante do curso: a formatura!

11) Como você enxerga a relação entre escola e a consciência política do cidadão? Acha que formamos pessoas políticas?
Educação e cidadania estão intimamente relacionadas; para que haja a formação de uma sólida consciência política é necessário uma educação pública de qualidade e investimentos constantes no sistema educacional do país, inclusive na pesquisa científica em todos os níveis. Porém, esta educação deve priorizar conteúdos curriculares mais flexíveis e, sobretudo, enfatizar uma educação democrática e cidadã, voltada para a construção de uma consciência crítica e para a participação política de todos. No Brasil, estamos muito distantes disso ainda...

12) Dentro de todos os seus anos de magistério, qual o pior e o melhor momento que você viveu relacionado ao entendimento político de seus alunos?
Foi quando um aluno na graduação, numa aula de História do Brasil Contemporâneo, me contestou ao dizer que a ditadura militar matou pouco. Eu dizia que os números de desaparecidos políticos e mortos no Brasil pelo regime militar eram subestimados; que o relatório da Comissão Nacional da Verdade e da Justiça, no governo Dilma, provavelmente divulgaria um número muito maior... Foi aí que ele me disse que os números eram, na verdade, superestimados, que a ditadura matou menos...

13) Qual a diferença entre o ensino fundamental, médio e a graduação quando falamos de sociedade? Quais desses alunos tem mais consciência política?
Esta é uma pergunta que depende de muitas variáveis, sobretudo se falarmos da desigualdade educacional e regional que impera no país.

14) Já que falamos de política. Em sua opinião, qual o perfil ideal que o candidato à presidência precisa ter para enfrentar os problemas do nosso país hoje?
Ele ou ela precisam estar verdadeiramente comprometidos em combater a pobreza e a desigualdade social no nosso país. É preciso que o Estado represente os anseios da maioria da população brasileira e não os interesses privados do grande capital nacional e internacional. República é uma palavra de origem latina que significa cuidar da coisa pública, do bem comum, então, o Estado brasileiro precisa priorizar o interesse público e não o privado, como acontece aqui...

15) Quais dicas você dá aos nossos leitores nessa reta final de preparações para as eleições? Como votar de maneira consciente?
Pesquisar a trajetória política dos candidatos e candidatas, bem como seus projetos e pautas de governo, é fundamental... também considero imprescindível observar suas coligações partidárias e quais interesses os candidatos e candidatas representam.

16) E finalizando nossa conversa, para você, o Brasil é realmente um ponto fora da curva?
Não sei se esta expressão pode definir o Brasil, mas sem dúvida alguma estamos atravessando um momento de grande crise, um momento de inflexão e redirecionamento... José Murilo de Carvalho, em seu livro recém-lançado, “O pecado original da República”, diz que o Brasil é uma “nação impenitente”, isto é, que não se arrepende e persiste nos seus erros. Creio ser esta uma expressão que pode definir o Brasil... De qualquer forma, a já frágil democracia brasileira está seriamente ameaçada!

 


Quero deixar um agradecimento especial a Professora Doutora Cláudia Farias, por sua abertura e disponibilidade em dividir um pouco de seu conhecimento. Que seu exemplo de força e inteligência nos faça cidadãos melhores. Obrigada Cláudia!


 

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