O PIOR DEBATE DE TODOS OS TEMPOS

“Não dá para fingir que está tudo bem!”

Ontem, na reta final do período eleitoral, a TV Globo exibiu o último debate entre os presidenciáveis. A calorosa conversa esperada para esse encontro, sem dúvidas, não foi à mesma com a ausência dos candidatos mais almejados da noite, Jair Bolsonaro e Cabo Daciolo. O primeiro pela necessidade de ampla discussão das ideias que apresenta – capacidade restrita do candidato – e o segundo pela grande mobilização que tem causado na internet ao defender valores fundamentalmente religiosos e não moralistas.

O clima do debate, que mais uma vez não contou com a presença de todos os candidatos, foi marcado pelo comportamento leve e descontraído do apresentador durante diversos momentos. Essa pegada trouxe um tom de amenidade à situação, como se toda uma campanha marcada de sangue e regada a muito discurso de ódio tivesse simplesmente desaparecido diante de nossos olhos. E desapareceu não porque racionalmente assim o fizemos quanto sociedade, desapareceu porque simplesmente fingimos não existir. Fingimos com elegância não ver a complexidade das ideologias que crescem, como ervas daninha, rodeando todos os lados. Tal esquecimento, de forma muito oportuna, fez com que o diálogo, a discussão de ideias e o enfrentamento – necessário no processo de campanha – fossem transformados rapidamente em “ferramentas de ataque” ao candidato ausente.

Falando sobre o candidato ausente, a também oportuna entrevista de Jair ao canal da Rede Record deixou bem clara sua estratégia política frente aos momentos de embate de ideias. Em uma emissora que assume sua influência protestante, Jair conseguiu manobrar todo o seu público, direcionando-os a uma entrevista exclusiva que aconteceu no mesmo dia e horário do debate presidencial. Assim, de forma louvável, garantiu que o esquema de “ferramentas de ataque” ganhasse cada vez mais legitimidade e assinou, com tranquilidade, seu atestado de superficialidade diante da necessidade de argumentos concretos e embasados.

Site: Jornal Tribuna Ribeirão

Uma das falas de maior destaque da noite foi a de Boulos que, em um misto complexo de serenidade e preocupação, discursou contra a ditadura e deixou um firme e aberto posicionamento sobre as consequências das convicções extremadas que são endeusadas atualmente. Essa fala, colocada na hora e no lugar certo, deixou para nós uma lembrança dolorida do passado, que ainda não cicatrizou e sangra, quase como uma hemorragia, nos últimos meses. Parece que não aprendemos muito com tudo que passamos...

O pior debate de todos os tempos não foi ruim. Promoveu algumas discussões, deu voz a frases lúcidas de Marina Silva e Ciro Gomes, nos fez pensar racionalmente sobre toda a problemática que envolve o PT, demonstrou as intenções dos candidatos (mesmo os que não estavam); foi razoável. Só não foi eficaz. Satirizou a democracia. Não foi capaz de proporcionar o embate entre os dois principais oponentes ao cargo da presidência. Não foi capaz de muitas coisas. Não foi porque não somos. O debate pode ser considerado o pior de todos porque mostrou sem máscaras a real face da política hoje. E beleza, definitivamente, não é o forte dela!

No fim, o demônio criado em torno da figura do PT, a descrença nacional no sistema político, os grandes escândalos de corrupção, os altos índices de violência ocasionados pelas desigualdades sociais, a crescente onda nacionalista, a influência das comunidades neopentecostais e a valorização do discurso extremista fez a ascensão do mito. Como disse um amigo, “a vontade de rir é grande, mas a de chorar é maior ainda”. E, assim, em meio às lágrimas, o que nos resta é continuar gritando aos que parecem surdos, que os mitos são lendas, não são reais. São criações fantásticas nascidas para dar conta de realidades que não somos capazes de explicar. O grande problema é que somos capazes. Só não sabemos disso. Não sabemos mais nada...

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