COMO A POLÍTICA DESTRUIU RELACIONAMENTOS

A empatia ainda pode salvar o mundo!

Nessas últimas semanas assistimos, pouco a pouco, a questão política passar a ser o assunto mais comentado do momento. Não importa o local, não importa o horário, não importam as pessoas. O que realmente tem importado é falar sobre o desfecho das eleições, comentar sobre as inúmeras notícias que circulam pelas redes sociais e defender um lado em meio a essa intensa e crescente divergência de opiniões.

A grande questão é repensar e problematizar o que de fato tem sido discutido. Será que realmente falamos sobre política?

Em todas as conversas os apontamentos individuais, as ideologias próprias e os interesses pessoais sobrepõem às necessidades coletivas. É fácil perceber – principalmente em eleitores mais extremistas – que o discurso pautado em uma concepção de valores é muito mais debatido do que as deficiências sociais, as políticas públicas defendidas pelos partidos ou os programas de governo. A prova disso é a aparente ausência de debates que envolvam os dois candidatos à presidência nesse segundo turno e nossa total aceitação sobre o fato. Não estamos procurando soluções eficazes para problemas sociais complexos; estamos, ao contrário disso, validando nossa moral e nossos valores.

Dentro desse contexto, é fácil perceber o motivo que levou a política a se transformar, do dia para a noite, em uma grande onda destruidora de relacionamentos. Não existe uma casa, uma família, um grupo de amigos ou um local de trabalho sequer onde as tais discussões morais, onde o exercício da sobreposição de valores, não falou mais alto que o afeto e o respeito antes construídos.

Na família e nas relações de amizade até mesmo os mais calados e tímidos encontraram voz para manifestar suas ideias, principalmente nas redes sociais – local que ampara a falsa ilusão da ausência de punição pelos excessos. Inúmeros foram os casos de pessoas, antes dóceis e calmas, que deram lugar a personalidades agressivas e muitas vezes preconceituosas. Presenciamos amigos terminarem amizades de anos, casais se separarem – mesmo que temporariamente – e pais expulsarem seus filhos de casa, simplesmente porque discordavam de suas ditas “concepções políticas”.

Charge do Site Imaginie

O ambiente de trabalho, talvez tenha sido o local mais afetado pela divisão ideológica que nosso país enfrenta hoje. Submersos em posicionamentos fortes e maciços, eleitores que defendem linhas extremistas de governo engaiolam cada dia mais os que se posicionam de uma forma diferente. Um dos casos mais preocupantes envolveu o proprietário da rede de lojas Havan, em seu discurso inflamado a favor de Jair Bolsonaro e a aplicação de “regras” em relação ao voto e escolha dos funcionários.

No meio do turbilhão de ideias geradas pelas campanhas eleitorais, a questão religiosa também foi um dos pontos mais altos nessa discussão. O moralismo, antes vestido de fé, agora circula de cara aberta entre aqueles que finalmente mostraram suas reais intenções diante da religiosidade. Discursos de apologia à tortura, ódio às minorias, os graves episódios de xenofobia envolvendo ataques à Região Nordeste, agressões físicas e assassinatos realizados contra apoiadores de movimentos políticos progressistas, vandalismo e destruição de patrimônio público – como no caso da placa de rua que levava o nome de Mariele Franco –, difusão de ideias como “bandido bom é bandido morto”, negação que a Ditadura Civil Militar tenha de fato ocorrido no Brasil, e tantos outros casos, em sua grande maioria, ligados à pessoas que professam sua fé através de religiões. Todos eles deixando cada dia mais tênue e, estremecida, a linha que nos separa do outro.

Nessa aparente confusão, muitos acabaram por peneirar amizades, repensar relações amorosas, rever comportamentos no trabalho, problematizar a fé. Muitos acabaram por reavaliar a forma como enxergam o país e suas instituições. E, sem dúvidas, todas essas implicações são válidas e trazem consequências, sejam elas positivas ou negativas. Mas no fundo, o que realmente se espera que venha, e que venha rápido, é uma consciência coletiva de fato politizada, voltada para o social e não para o individual, pautada em escolhas de bem comum e não em valores morais egoístas e intolerantes.

Achamos que discutimos política quando na verdade discutimos essa ferida, antes esquecida e agora aberta, de que nossa sociedade é de fato extremamente machista, xenofóbica, racista e moralista. Diante de um tema tão visceral, que nos fez romper laços, é preciso pensar que essa tal ferida aberta sangra ideologias, dói formas diferentes de ver o mundo, machuca egos inflados de uma verdade dita absoluta. Em um determinado grupo, enfurece ver que o outro não pensa como você; enquanto isso, no grupo oposto, dói ver que aquele, que também é outro, representa um lado sombrio que não queremos acreditar existir...

No fim, não foi a política que destruiu os relacionamentos. Fomos nós. É que só agora nos demos conta! É que só agora a tal ferida sangrou para valer!

 

Links Interessantes sobre o tema:
Moa do Katendê: Os minutos que antecederam o assassinato de mestre de capoeira esfaqueado após discussão política
Kéfera rompe com a mãe após divergência política e chora em desabafo
Mulher é agredida em Pernambuco após discussão política

 

Deixe uma resposta