BOLSONARISMO: MEDOS E INCERTEZAS

Ninguém solta a mão de ninguém

Desde o último domingo, com a finalização das eleições e a vitória do candidato Jair Bolsonaro a presidência do Brasil, as coisas não foram mais as mesmas. E hoje ainda é terça-feira!

Logo após o anúncio da vitória, em um pronunciamento oficial, o então presidente ao lado de – pasmem – Magno Malta, participou de uma oração. O ato, aparentemente “simples e cheio de gratidão”, deixou escapar sem nenhuma vergonha a máxima religiosa defendida pelo presidente e, ressaltou de maneira dura e direta, a estreita relação entre religião e estado, agora firmada e no futuro, geradora de uma linha cada vez mais tênue. Usando passagens bíblicas como base da campanha, levando as ruas frases que tratavam de Deus como slogan e direcionando seus esforços ao público protestante por meio do canal de TV Rede Record, Jair emite uma mensagem: a de que existe sim cor e nome para a fé no Brasil. O questionamento que fica àqueles que não comungam da mesma expressão de fé que os apoiadores do presidente eleito, é o mesmo que nos fizemos anos atrás... O estado será laico?

Em suas entrevistas, principalmente a vinculada à TV Globo e a Rede Recod, o presidente eleito se posicionou de maneira duramente contraria as instituições de impressa que manifestassem opiniões e interesses diferentes dos cultivados por ele e seus apoiadores. Se escondendo no argumento raso de que as matérias já publicadas sobre ele – envolvendo os escândalos de caixa dois e as suas ácidas críticas à movimentos de minoria social – eram mentiras e relatavam Fake News, o presidente não se mostrou interessado em apontar sua inocência ou discutir ideias. Aliais, discutir ideias é de longe um conjunto de palavras pouco utilizado por ele. O questionamento que fica àqueles desejam emitir suas opiniões publicamente é o mesmo que nos fizemos anos atrás... A imprensa será livre?

Charge do Insta Cartunista das Cavernas

Com suas ideias perigosamente disseminadas, o presidente eleito assiste de longe, sem se responsabilizar, as ações e atos de violência praticados pelos seus apoiadores. O caso da mãe que pintou o filho de negro relembrando a escravidão, os gritos de ódio à homossexuais em meio as marchas de comemoração do resultado da eleição, as inverdades levantadas a respeito do inexistente “Kit Gay”, a postagem da deputada estadual Ana Caroline Campagnolo que incitava alunos a gravarem aulas de professores que falassem sobre temas tidos como “esquedopatas”, as agressões físicas sofridas por inúmeros brasileiros opositores ao presidente - como ataques gratuitos realizados por pessoas armadas, que gritavam descontroladamente “Bolsonaro”- e, tantos outros, que desconhecemos por agora, deixam a vista de quem quiser ver, que o peso da ideia já é muito maior que seu idealizador. O questionamento que fica àqueles que não concordam com os “conceitos” bolsonaristas é o mesmo que nos fizemos anos atrás... Haverá possibilidade de oposição ao governo?

Em meio a todo esse caos, as falas do já famoso Paulo Guedes causaram desconforto entre os países membros do Mercosul. Por outro lado, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, manifestou seu apoio a Jair; sua fala, encarada como um aceno contente a vitória do candidato, evidencia a muito insinuada proximidade entre os extremistas representantes da direita ultraconservadora e apontam tempos sombrios de alianças duvidosas. Inúmeros políticos ao redor do mundo manifestaram seu descontentamento com a possível vitória de Bolsonaro e as relações internacionais estão abaladas frente um país que parece dar dez passos para trás enquanto o mundo caminha rumo à diversidade, ao respeito e a inclusão. O questionamento que fica àqueles que desejam um país que se mantém ao lado de seus pares é o mesmo que nos fizemos anos atrás... Marcharemos rumo ao retrocesso social?

No fim, muitas são as dúvidas e muitas são as respostas... ditas pelas esquinas, jogadas pelos cantos, escondidas no comportamento e nas falas dos apoiadores do presidente eleito. O que nos falta é crer que tudo é mesmo real, que a vida percorreu caminhos escuros e escassos e que agora, mais do que nunca, enxergamos nosso país como sempre foi e como ele sempre fingiu não ser. As incertezas quanto ao futuro não são tão incertas assim. Para os que compreendem o presente a luz do passado e entendem o futuro como consequência moral do presente, dois dias de vitória já representaram 20 anos de regressão. Aos que veem nosso descontentamento como "mimimi", boa sorte e contem conosco. Do nosso lado, que é o lado de todos, seguiremos firmes. Resistência! Aqui, ninguém solta a mão de ninguém.

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2 comentários sobre “BOLSONARISMO: MEDOS E INCERTEZAS”

  1. Oi Tamires,
    O momento é preocupante. Pode ser apenas uma conjuntura passageira de loucura coletiva que nos levou a isso, ou pode ser apenas o começo de uma era que promete ser dura, obscura, autoritária e secária, uma espécie de talibã cristão tupiniquim.

    Só uma coisa é certa: a direita/classes dominantes está de parabéns; Seu projeto era acabar com a hegemonia do PT no poder, e pra isso mobilizaram durante anos seus instrumentos estruturais como a imprensa, o congresso, o judiciário, as forças armadas e até as redes sociais, inspirada em Steve Bannon e sua rede de fake news. Nesse período deram um golpe parlamentar, prenderam o líder das pesquisas e fomentaram a campanha de um imbecil que promete compensar os senhores do poder sua imbecilidade com mercado livre.

    Este é um retrato de como é dificil vencer aqueles que detêm o poder e os instrumentos de força e coação em suas mãos. A farsa da democracia caiu, agora estamos nas mãos do Imponderável.

    Grande abraço.

    1. Como eu queria acreditar que é apenas uma loucura coletiva…
      Até acreditei no começo, mas acho que agora chegamos em nível diferente, um lugar de onde nao se sai mais.

      Eu li algumas coisas a respeito de estruturas e do quanto as esquerdas as tinham subestimado, lendo agora seu comentário, as coisas fizeram ainda mais sentido!
      Sem dúvida, a máscara da democracia caiu!

      Muito obrigada pelo comentário Almir! Contribuiu muito para essa reflexão!

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