PORTA GIRATÓRIA

O cotidiano incomum!

Estava conversando com um amigo sobre como era ser negro para ele no dia a dia, nas pequenas coisas e, no meio desse papo, conversa vai, conversa vem, ele me falou das portas giratórias. No começou me pareceu estranho associar o racismo a elas, mas depois, vi que estranho era não associá-las.

Ele me contou de um episódio onde foi barrado em uma das portas giratórias de um banco que foram travadas automaticamente quando ele, negro, chegou ao local usando um boné ou uma mochila. No caso da mochila, ainda mais absurdo do que já parece, foi preciso abrir e retirar as coisas que estavam dentro dela até que os agentes sentissem que ele não oferecia nenhum perigo. “O racismo velado e implícito se mostra nestas situações onde somos expostos a viver como se sempre tivéssemos culpa daquilo que nem sequer pensávamos em fazer”, me disse ele completando a história.

Depois disso tudo, fiquei pensando na ideia de perigo. Pensando no quanto o perigo é de fato muito maior do que imaginamos. E ele, sorrateiro e escorregadio, não vem do meu amigo que só queria ir ao banco, vem de um conceito velho e insistente de superioridade de classe. Onde aquele que é mantido a margem da nossa sociedade não é capaz de entrar em um banco sem assaltá-lo. Assaltados foram eles, quando levaram toda sua possibilidade de vida navio à dentro, Brasil a fora. Assaltados foram eles, quando perderam sua identidade e sua memória em nome de histórias que nem sequer se aproximavam das suas. Assaltados foram eles, quando viram suas nações minguarem para promover o desenvolvimento de outras. De onde vem o perigo?

Pensei também que o tal cotidiano talvez tenha outro significado para quem tem a pele mais preta. O cotidiano não é comum para quem precisa provar há todo momento seus desejos e intenções, para quem precisa, desesperadamente, se inocentar de mentalidades, tão frias e espessas, quanto às grades de uma prisão. Prisão essa que nasce na mente e se materializa na porta giratória, travadas automaticamente quando o preconceito é liberado.


Um agradecimento especial ao Maurício Figueiredo, que dividiu sua história comigo, revisou esse texto e assim, problematizou nosso cotidiano.


 

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