QUEM É O NEGRO HOJE?

Fernanda, da Rede das Pretas, conversa sobre o papel da mulher negra hoje!

Em um mês todo dedicado a reflexão sobre o protagonismo do negro na sociedade atual, nosso site busca no dia da Consciência Negra mergulhar um pouco mais na questão. Olhando agora a mulher como foco principal desse processo de mudanças e rupturas, conversamos com a Fernanda Guimarães, do Coletivo Rede das Pretas.

Mulher preta, de 25 anos, Fernanda nasceu no Rio de Janeiro (capital), mas mora hoje na Região dos Lagos. É Bacharel em Serviço Social e, atualmente, está como Coordenadora da Rede das Pretas. O movimento, que visa o fortalecimento e o empoderamento feminino, é um grande passo para o crescimento da mulher preta como novo agente transformador social.

Vamos conferir essa conversa?

1) Conhecemos o seu trabalho ligado à questão do negro, mas queremos entender melhor: no que consiste o movimento Rede das Pretas?
O próprio nome já diz, é uma rede (união). A Rede das Pretas é composta por mulheres negras, visamos o fortalecimento entre nós, para o nosso cotidiano plural, visamos o empoderamento feminino. Potencialização do trabalho que já fazemos como mulheres negras.

2) Como e quando ele nasceu? Quem foi seu fundador?
Quem idealizou e plantou a semente, que hoje floresceu e se tornou a nossa Rede, foi a Dra. Margareth Ferreira, advogada, mulher preta, militante. Uma mulher incrível que eu tive oportunidade de conhecer e junto com ela, todas a companheiras da Rede.

3) Qual o principal sonho da Rede das Pretas?
Crescer cada vez mais,ocupando todos os espaços, unindo mulheres que estão dispostas a atuar conosco e trabalhar de forma coletiva.

4) Como o movimento vem atuando na concretização desses sonhos na Região dos Lagos?
Estamos no momento de criar espaços mais concretos de discussão, que possam, de fato, nos fortalecer.Realizamos encontros em grupo com roda de conversa, também realizamos eventos voltados com a temática sobre a questão racial e outros temas relevantes. Estamos sempre articulando ideias.

5) Qual o impacto desse movimento na nossa Região levando em conta o nosso passado tão ligado à questão escravocrata?
Dar espaço para que outros grupos e movimentos formem parcerias com a Rede, mostrar que nossas ações enquanto coletivo é o que faz a nossa Rede se movimentar.

Coletivo Rede das Pretas e seu trabalho na Região dos Lagos.

 

6) Observamos uma perda muito forte das raízes africanas por aqui, principalmente pelo crescimento de outras culturas religiosas e das demandas sociais. Como você vê essa relação? Acredita que a Rede das Pretas possa ajudar a manter essas raízes vivas?
Nós somos resistência, e a partir disso continuaremos mostrando a nossa história, a nossa luta e a nossa cultura. Dentro da nossa Rede temos mulheres que realizam trabalhos incríveis com essa temática, que compartilham suas ideias e saberes, como a Dra. Margareth Ferreira, as professoras Márcia Fonseca e Andreia Fernandes idealizadoras do Quilombo Griot, assim como a professora Jana Nery e outras parceiras. É dessa forma que nossa rede se movimenta, sempre trabalhando em conjunto.

7) Falando agora sobre a mulher negra, como você vê o protagonismo dela hoje, na nossa sociedade?
A nossa luta é constante, pois carregamos um peso histórico muito grande, principalmente as opressões machistas em cima da mulher negra atrelado a questão do racismo. Então, nos colocarmos a frente de tudo é um desafio, pois tentam nos silenciar de todas as formas. Estamos dando um passo de cada vez, hoje eu vejo mulheres incríveis mostrando seus trabalhos, expressando ideias em todos os espaços (possíveis), principalmente nas plataformas digitais e eu acho maravilhoso, temos youtubers, cantoras, atrizes, professoras, militantes e por aí vai.Hoje eu posso ligar a TV e assistir o telejornal apresentado pelas jornalistas negras como Joyce Ribeiro, Luciana Barreto, Adriana Couto e Zileide Silva, e até ver a Karol Conka apresentando seu próprio programa de beleza. Entretanto, sei que ainda temos muitas coisas para conquistar e temos um caminho longo a ser percorrido, o importante é não desistirmos, pois cada passo que damos é válido.

8) O que a mulher negra busca? Quais são suas bandeiras e causas?
Respeito, reconhecimento, espaço, queremos ser valorizadas pelo nosso trabalho, ações e ideias. Lutamos contra a qualquer forma de opressão, lutamos contra violência e contra a sexualização dos nossos corpos.

9) O racismo enfrentado pela mulher negra é diferente do racismo enfrentado pelo homem negro?
Há dificuldades tanto para o homem negro, quanto para mulher negra, só que a mulher sofre o dobro ou até mesmo o triplo. O homem negro é discriminado na sociedade, a gente sabe como esse sistema opressor funciona, mas o peso para a mulher negra é maior. A mulher negra teve uma construção de identidade diferente de uma mulher branca, então ela não tem privilégios; ela foi “educada” para ser submissa. Algumas sofrem inúmeras negligências do companheiro, sendo físicas e psicológicas e, são sempre silenciadas. Poucas mulheres negras ocupam os espaços de poder, pois elas sempre são testadas e questionadas sobre seu trabalho e são vistas como subalternas. Imagina o quanto isso pode adoecer uma pessoa.

10) Como você analisa a reação da sociedade ou ouvir as vozes negras femininas que não mais se calam?
Ainda há um bloqueio enorme por parte de algumas pessoas que não querem entender o que nós passamos e sofremos até hoje. O discurso de ódio e ignorância, em sua forma mais perversa, tenta nos silenciar e nos intimidar. É difícil ter diálogo com pessoas que não estão dispostas a ouvir. Nossa luta é árdua, mas esses bloqueios serão quebrados com a nossa voz, com a nossa música, com a nossa poesia e a nossa cultura.

 

Coletivo Redes das Pretas na III Marcha das Mulheres Negras, em 2017.

 

11) Levantando em conta essas mesmas vozes, como a morte de Marielle Franco impactou o movimento Rede das Pretas e as mulheres negras no geral?
A partir desse acontecimento trágico, não só pelo caso da Marielle, mas também pela Cláudia Ferreira, mulher preta, mãe,  que teve seu corpo brutalmente arrastado, pelo Amarildo e por cada jovem negro assassinado,a nossa Rede, e creio que todos os outros grupos e movimentos sociais se mobilizaram, a frase que foi muito compartilhada “Vamos transformar o luto em luta”, nos deu mais gás para lutarmos, reivindicarmos os nossos direitos e mostrar que não vamos desistir.

12) No livro de Djamila Ribeiro “Quem tem medo do feminismo negro”, ouvimos essa expressão sobre o feminismo que é nova para muita gente. O que é exatamente o termo “feminismo negro”? Existe alguma diferença entre o termo feminismo que usamos diariamente?
É um tema delicado, mas que deve ser discutido; é importante que algumas pessoas entendam que dentro do grupo “mulher” existem várias mulheres. Como eu comentei anteriormente, a construção da identidade da mulher negra é diferente de uma mulher branca. Então, o Feminismo Negro coloca a mulher negra no centro do debate, com o objetivo de promover e trazer visibilidade às suas pautas e reivindicar seus direitos, fazendo uma reflexão critica das situações que a cercam,dando espaço a vozes que foram historicamente silenciadas.

13) Levando em conta todas essas mulheres que citamos, qual o perfil das mulheres que atuam na Rede das pretas?
Dentro da Rede temos mães chefes de famílias,  artesãs, professoras, empreendedoras, advogadas, militantes, assistentes sociais, enfermeiras, entre outras, mulheres incríveis,cada uma em sua respectiva área de atuação, mas sempre trabalhando em conjunto. Nosso objetivo aqui é possibilitar o contato de mulheres que possam fortalecer umas as outras em seus respectivos campos de atuação profissional, militante, pessoal e social. Nós agimos sempre em parceria.

14) Quem se encaixa nesse perfil e,a partir da nossa conversa sentiu vontade de agregar esse trabalho, deve fazer o que?
Mulheres que queiram compartilhar saberes e ideias, trabalhar em conjunto fortalecendo o coletivo. Estamos nas redes sociais, Facebook, Instagram e Twitter e temos um Blog é seguir @rededaspretas. É só entrar em contato, quem vier para somar, será super bem vinda.

15) Pensando em tudo que conversamos, qual recado você deixa aos leitores do nosso site?
O mundo precisa de mais amorosidade, empatia e principalmente de paz. Esteja próximo de pessoas que te façam buscar o seu melhor, pois qualquer pessoa que te incentive a evoluir intelectualmente, profissionalmente ou emocionalmente é alguém que vale a pena ter por perto.

16) E finalizando nossa conversa, terminando com nosso tema do mês, quem é o negro hoje?
É a dona Maria, o Sr. José, sou eu, é a memória da Marielle. São milhares de jovens, homens e mulheres que lutam todos os dias contra o racismo e a opressão, cada trabalhador e trabalhadora que buscam conforto e segurança.

 


Quero deixar um agradecimento especial a Fernanda, por sua disponibilidade em dividir com a gente seu trabalho, sua luta e seus desejos de mudança para uma sociedade mais justa e mais igualitária. Sem dúvidas, entender o papel mulher negra hoje fortalece a caminhada. Muito obrigada!


 

Deixe uma resposta