COMO NÃO FAZER UMA HORTA

Sobre cultivar as sementes certas!

Horta está na moda e, às vezes, eu gosto de algumas coisas que estão na moda. É que elas, as hortas, trazem uma ideia de retorno a terra, de contato com a natureza, de proximidade com o mundo enxergando ele quanto casa comum, fazem a gente repensar a qualidade de tudo aquilo comemos e a importância de tudo aquilo que deixamos de comer. Elas retomam a ideia de que precisamos estar menos em nós e mais na vida, que é simples, é cotidiana. Horta é mesmo uma grande lição.

Por isso, decidi fazer uma!

No meu trabalho, os gestores ambientais organizaram uma delas, que por sinal está sempre verde, linda e com belas colheitas. Pensei: por que não ter uma dessas em casa? Por que não viver essa experiência todos os dias? Convenci meu namorado e minha mãe a me ajudarem a encher dezenas de caixas de feira com terra, comprei sementes e comecei a regá-las todos os dias, ora de manhã, ora a tarde. Fiz colheitas, doei alfaces e me senti plena, a própria agricultora. Tudo isso durou um mês. Depois ela foi murchando porque eu fui esquecendo de regar, fui esquecendo de podar, fui esquecendo.

Coloquei nas minhas metas de férias reavivar as caixas, deixá-las verde de novo e refiz o ciclo: comprei sementes, reguei todos os dias, ora de manhã, ora a tarde. Plantei rúcula em uma delas e como nunca tinha visto um pé de rúcula nascendo, fiquei eufórica com os primeiros sinais de planta. Me apaixonei pela tal e todos os dias estava lá, admirando minhas plantas que cresciam fortes e verdes, como o planejado. Depois de um tempo, comecei a achar a rúcula meio estranha, procurei na internet e descobri que as rúculas que plantei não eram rúculas, eram só matos que vingaram quando as sementes morreram e, cresceram quando eu passei a regá-los todos os dias. As rúculas nem sequer existiam. Cultivei mato ao invés de sementes. Cultivei a ilusão de uma rúcula que era só planta rasteira mesmo.

Tudo isso me fez pensar nas inúmeras vezes em que cultivei na vida algumas rúculas fajutas, que pareciam hortaliças frescas, mas não passavam de matagal. Pensei no tempo gasto, no trabalho empregado, no esforço realizado, nas expectativas que giravam aceleradas em torno de uma rúcula que não era rúcula, em torno de algo que nunca seria o próprio algo esperado. Seria qualquer outra coisa que fosse, menos a coisa que pensei que fosse. Percebi que essa não era a primeira rúcula errada que eu cultivava e que talvez pudesse ser a última, se eu aprendesse a pedir ajuda, se eu aprendesse a entender melhor tudo aquilo que me cerca, tudo aquilo que não domino, para assim, enfim, colher as sementes certas. Porque podemos até plantar as sementes certas, mas sem conhecer os frutos, as folhas, a rama, qualquer mato vira safra.

Passado esse episódio, percebi que a horta foi murchando de novo porque eu fui esquecendo de regar, fui esquecendo de podar, fui esquecendo. Coloquei nas metas de 2019 refazer o ciclo! Quem sabe agora eu regue as plantas certas!

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