CACHORRO SOFRE VIOLÊNCIA NA CARREFOUR

Manchinha!

De repente as imagens de uma cadela cuidadosamente deitada começaram a circular pela internet e, a história do possível caso de maus tratos se tornou um dos assuntos mais comentados e lamentados da semana. Manchinha, como era conhecida, morava ao entorno das lojas Carrefour em Osasco,São Paulo e, as suspeitas indicam que ela foi vítima de violência gratuita, realizada pelo segurança de uma empresa terceirizada, que prestava serviço para a rede. Ainda sem muitas respostas, o suposto crime segue sendo analisado pela polícia e a comoção social trás discussões profundas sobre o tema.

De imediato, o traço mais chocante de toda essa história é a violência. A brutalidade e a forma desumana de tratamento recebida por ela nos deixam de súbito sem ar, sem ação, com um nó mal dado na garganta. O problema é que esse nó demonstra apenas a ponta de um grande novelo. Em uma sociedade que caminha aceleradamente a uma experiência quase que institucional da violência gratuita, atos como esse, direcionados a animais, nos fazem pensar nas reações homem x homem, no limite possível e alcançável da intolerância. Atos como esse trazem a oportunidade de rever conceitos e repensar exageros. Ver de perto o resultado sanguinário da violência nos aproxima da realidade incentivada de que é preciso ser duro e viril, de que é preciso ser “macho” o suficiente para resolver os problemas usando a força. Não é preciso.

Nesse ciclo sem fim, caímos ainda em um grande e escuro poço, onde se esconde o susto da pergunta, que defini sobre quem é animal, quem é gente nessa história toda. O comportamento “humano” de Manchinha passa pelo comportamento “animal” do segurança e/ou de quem ordenou o serviço. O comportamento “humano” da cadela diz mais sobre relacionar-se do que o comportamento “animal” do homem. Não se trata de humaná-la e nem de nos desumanar. Se trata apenas de respeito por aquilo que se é, independente do que se seja. Se trata apenas do comportamento animal do bicho e do homem. Se trata do bicho homem…


Posts desrespeitosos sobre o assunto dominaram a internet!

Discutimos muito a relação de afeto entre homens e cachorros por aqui  e problematizamos a forma como humanizamos os pequenos, mas de maneira nenhuma, de forma alguma, olhamos a violência com bons olhos. Se quer a olhamos! Disfarçada na ideia de “falta de gosto”, de “falta de jeito”, inúmeros animais são diariamente vitimas de casos como esse, que infelizmente, por não estarem ligados a grandes empresas, perdem a mesma visibilidade. A linha entre o amor e o respeito é tênue, frágil e precisa a cada dia ser reinventada. Entender que não gostar de algo ou alguém não te exime do direito de respeitar esse algo,de respeitar esse alguém, deve ser uma prática cotidiana. É preciso,de alguma forma, por menor que seja, ser ao menos gentil com aquilo que não lhe agrada. A vida, seja ela qual for, merece respeito.

Queria muito penalizar apenas o segurança por essa violência. Queria muito com um boicote resolver as relações e políticas de segurança da Carrefour. Queria muito que os problemas fossem assim, tão superficiais quanto parecem ser. No fundo, na beira íngreme da realidade, todos sabemos que os culpados são muitos, são todos, são diários. A violência nasce da forma como vemos o outro, como enxergamos a vida.

Por isso, vale a pergunta: Como anda nosso olhar?

Para essa reflexão, deixo a poesia do meu amigo e mestre, Jiddu Saldanha:

Levaram minha vida tão singela
com mãos pesadas de maldade,
postaram a dor por sentinela
num requinte de amarga crueldade.

Meu corpo mutilado pelas pernas
quebrando meus ossinhos tão divinos
deixando-me tão só numa caverna
onde habita o pior dos assassinos.

Senti-me tão sozinho e entristecido
fui posto pra morrer covardemente
nas mãos de quem seria meu amigo.

Mas sei que com a força do universo,
meu uivo de esperança ecoará…
neste mundo tão vasto e perverso.

(Jidduks)

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