CASOS DE ASSÉDIO CONTRA MULHERES

O nosso corpo não é nosso!

Nas últimas semanas casos de assédio sexual, violência, estupro e abuso contra mulheres foram destaque nas nossas tv’s, ganharam os assuntos triviais, assim como os debates intelectuais e nos fizeram repensar, mais uma vez, o nosso lugar quanto mulher, o nosso papel quanto homem.

Na nossa região, no município de Arraial do Cabo, uma turista foi estuprada e morta em uma trilha conhecida da cidade, enquanto caminhava sozinha pelo local. Em Goiás, cerca de 30 mulheres –número apontado até a publicação desse texto – acusaram o famoso médium João de Deus por abuso sexual; 15 deles estão sendo investigados. Abusos esses realizados a partir da fé, da crença e da confiança das mulheres que o procuravam como porto seguro e “caminho” espiritual. Ambas as estradas, as trilhas de Arraial e os caminhos da fé de Goiânia, apontavam na verdade ruas sem saídas.

O mais amargo da violência é a mentalidade machista, fruto da nossa sociedade patriarcal, que conduz à culpa a vítima e não ao agressor. No caso de Arraial, inúmeras foram às falas que justificavam a agressão brutal sofrida por Fabiane Fernandes com a sua escolha de andar sozinha. Como se andar sozinha fosse um livre acesso ao estupro, fosse uma porta aberta a qualquer homem que nos desejasse e pudesse, livremente, ocupar nossos corpos com sua vontade. Logo, Fabiane seria estuprada, logo Fabiane seria culpada por sua própria dor. Ela procurava a paz de estar com ela mesma, onde ela quisesse estar e, encontrou a morte, fria, dura, doída, no seu lugar.

Retirada do site: Humor Político

No caso das mulheres de João de Deus, as falas procuraram outros rumos, igualmente amargos. Nelas se diziam o quanto às vítimas deveriam ter gostado da agressão, o quanto as vítimas deveriam ter se encantado pelos abusos ou pelo abusador, o quanto as vítimas não eram vítimas. Tudo isso pela demora na denúncia, pela demora em pedir socorro. Como se a demora demonstrasse algum sentimento bom. Como se algum sentimento bom pudesse existir após tamanha violência.

O pior de tudo, o mais dolorido, é pensar que por um momento, por tantos deles, cogitou-se acreditar que as 15 mulheres estavam erradas, que todas elas acusavam por acusar. Pensou-se que João fosse mesmo de Deus e elas – e nós – como sempre, crias do diabo. Percebemos chocadas o quanto os “acontecimentos espirituais” em seu depoimento repercutiram mais do que seus crimes. 

A verdade é que nossos corpos nem sequer são nossos. Somos privadas pelas escolhas que cabem a nós, como se elas fossem do estado, como se elas fossem das igrejas, como se elas fossem – e são – apenas dos homens que nos governam e não nossas. E nós, confusas, irritadas, falando demais o que não devíamos falar, o que devíamos apenas calar. Reclamando de homens aos quais deveríamos ser gratas. Exigindo, sem poder exigir, o poder sobre nosso próprio corpo, sobre nossas próprias escolhas.


Retirada do site: Geografia em Foco

No abismo das escolhas, nasce ainda a abstração turva da escolha do homem. E não o homem como figura de linguagem humana; o homem do gênero homem, o homem do substantivo homem, o homem da ideia homem que leva tantas mulheres junto! Homens que criam, como que de maneira adestrada, a cultura legitimada do estupro no Brasil. Uma cultura que não é “centrofálica”, assim como o sexo o é. Uma cultura que realiza violência gratuita, embasada em pedaços de vassouras, em pedaços de ferro, em qualquer cabo que pareça quente o suficiente para caber. Uma cultura que está aí, estampada nas revistas, enfeitada de ciúme, revestida de cuidado. Desenhada, milimetricamente, na concepção de controle e poder, de domínio e de autoridade. Muito bem escondida nas esquinas escuras do amor. Uma cultura que não é só brasileira. É muitas! E pode deixar de ser nossa se assim quiséssemos, se assim fizéssemos.

Temos o direito de andar sozinhas, onde quisermos andar. Temos o direito de usar qualquer roupas, onde e quando quisermos usar. Temos o direito de dizer não, para quem quisermos falar. Temos o direito de ter fé, e de que essa fé não possa nos matar. Temos o direito de ter direitos. Temos o dever de sermos muito mais mulher que antes, de sermos muito mais guerreiras que ontem. Temos o dever de lutar!

Ser mulher às vezes dói e essa dor nem sempre é nossa, mas ainda assim é nossa!

Não irão nos calar!

Deixe uma resposta