BRUMADINHO E SEU MAR DE LAMA

É só o dinheiro que vale a pena?

Há duas semanas, na hora do almoço de uma sexta-feira, a barragem de rejeitos da mineradora Vale – em Brumadinho, Minas Gerais – se rompe mais uma vez deixando, até a postagem desse texto, 150 mortos e cerca de 180 desaparecidos, que infelizmente, talvez já estejam também na contagem de falecidos. Entre os corpos encontrados e os ainda desaparecidos, estão cerca de 100 funcionários da própria empresa. A questão é que essa história todo mundo sabe, nem era preciso contar outra vez. Mariana fez esse trabalho há três anos, mas parece que não aprendemos nada desde então.

Muito se falou sobre Brumadinho, que virou a principal manchete em todos os meios de comunicação do país e, acredito, do exterior. A imprensa cobriu o evento no local e entrevistas coletivas eram vinculadas a todo o momento, mostrando em tempo real o drama de inúmeras famílias que simplesmente perderam aqueles que amavam. Perderam aqueles que amavam sufocados na lama.

No entanto, passada a “euforia jornalista” inicial, começamos, lentamente, quase como em um movimento natural, a esquecer de tudo que vimos e das lágrimas que derramamos, mesmo não estando lá, mesmo não morrendo ninguém que conhecíamos. Por isso, optamos por refletir agora, passado o calor do momento, o que realmente aconteceu em Brumadinho e por que, mesmo diante toda a dor, é possível esquecê-la tão rapidamente…

Quantas cidades serão precisas para aprender que há algo errado?
(Charge retirada do site Views Blogg)

Para montar esse quebra cabeça, a primeira e grande peça, a maior de todas e a mais importante delas, está no nome que damos ao rompimento da barragem. Está na forma como tratamos o evento que não vem de uma catástrofe climática, que não vem de um erro humano possível, que não vem de um mero acaso da vida. Vem na verdade, da irresponsabilidade da empresa Vale e de seus empresários, vem da falta de fiscalização por parte do poder público, vem do descaso com que olhamos o outro quando só conseguimos olhar nosso próprio bolso.

Assim, o rompimento de Brumadinho não foi e não pode ser considerada uma tragédia. Tragédia é o que não prevemos. O que sabemos, o que podemos reverter e, mesmo assim, não fazemos, é outra coisa. É crime!

Logo, Brumadinho não fala apenas de barragens, não fala apenas de lama, não representa só dor. Brumadinho grita à necessidade de repensar a relação estreita entre os interesses empresariais e a qualidade de vida, individual e social, de todas as cidades e regiões que são afetadas por essas organizações. Grita ainda a irregularidade de grandes empresas – sejam elas mineradoras, frigoríficos ou empreiteiras, sejam elas quais forem e tenho certeza são muitas – que são relevadas em detrimento ao lucro que geram e aos possíveis empregos que garantem; todos eles as custas de pequenas cidades saqueadas de sua história e de sua cultura local.

Algumas coisas a lama, felizmente, não consegue cobrir!
(Charge retirada do site Views Blogg)

Mas por que então, diante de tudo isso, vamos esquecer Brumadinho na próxima semana? Se é que já não esquecemos…

Vamos esquecer porque reclamamos do alcance desse crime, nos solidarizamos, participamos de campanhas de doações, fazemos movimentos para que os bombeiros – grandes heróis nesse cenário – recebam as glórias de seu trabalho, acompanhamos atentos os noticiários… mas ainda assim, mesmo fazendo tudo isso, votamos em candidatos que não levam a serio a causa ambiental, que acreditam que as legislações atreladas a ela desaceleram o desenvolvimento e geram burocratização. Porque continuamos mantendo uma bancada ruralista na câmara e no senado e achamos tudo bem quando surge a ideia do ministério do meio ambiente ficar sob a tutela da agricultura. Porque ainda tem gente no mundo que acredita que índio não é gente “civilizada” e precisa ser socializado.

O problema das barragens não é atual, não nasceu na gestão do novo governo, mas paz parte de nossa corresponsabilidade garantir que as coisas de fato mudem, já que mudança é a bola da vez!

Brumadinho é culpa da Vale e ela deveria ser duramente penalizada por isso. Mas também é, de certa forma, responsabilidade nossa. Às vezes a gente esquece, mas quem dita às regras do jogo somos nós. Nosso governo é representativo!

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