COMO NÃO FAZER UMA HORTA

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A arte de cultivar as sementes certas!

Horta está na moda e, às vezes, eu gosto de algumas coisas que estão na moda. É que elas, as hortas, trazem uma ideia de retorno a terra, de contato com a natureza, de proximidade com o mundo enxergando ele quanto casa comum, fazem a gente repensar a qualidade de tudo aquilo comemos e a importância de tudo aquilo que deixamos de comer. Elas retomam a ideia de que precisamos estar menos em nós e mais na vida, que é simples, é cotidiana. Horta é mesmo uma grande lição.

Por isso, decidi fazer uma!

No meu trabalho, os gestores ambientais organizaram uma delas, que por sinal está sempre verde, linda e com belas colheitas. Pensei: por que não ter uma dessas em casa? Por que não viver essa experiência todos os dias? Convenci meu namorado e minha mãe a me ajudarem a encher dezenas de caixas de feira com terra, comprei sementes e comecei a regá-las todos os dias, ora de manhã, ora a tarde.

Fiz colheitas, doei alfaces e me senti plena, a própria agricultora. Tudo isso durou um mês. Depois ela foi murchando porque eu fui esquecendo de regar, fui esquecendo de podar, fui esquecendo.

Coloquei nas minhas metas de férias reavivar as caixas, deixá-las verde de novo e refiz o ciclo: comprei sementes, reguei todos os dias, ora de manhã, ora a tarde. Plantei rúcula em uma delas e como nunca tinha visto um pé de rúcula nascendo, fiquei eufórica com os primeiros sinais de planta. Me apaixonei pela tal e todos os dias estava lá, admirando minhas plantas que cresciam fortes e verdes, como o planejado.

Depois de um tempo, comecei a achar a rúcula meio estranha, procurei na internet e descobri que as rúculas que plantei não eram rúculas, eram só matos que vingaram quando as sementes morreram e, cresceram quando eu passei a regá-los todos os dias. As rúculas nem sequer existiam. Cultivei mato ao invés de sementes. Cultivei a ilusão de uma rúcula que era só planta rasteira mesmo.

Tudo isso me fez pensar nas inúmeras vezes em que cultivei na vida algumas rúculas fajutas, que pareciam hortaliças frescas, mas não passavam de matagal. Pensei no tempo gasto, no trabalho empregado, no esforço realizado, nas expectativas que giravam aceleradas em torno de uma rúcula que não era rúcula, em torno de algo que nunca seria o próprio algo esperado. Seria qualquer outra coisa que fosse, menos a coisa que pensei que fosse.

Percebi que essa não era a primeira rúcula errada que eu cultivava e que talvez pudesse ser a última, se eu aprendesse a pedir ajuda, se eu aprendesse a entender melhor tudo aquilo que me cerca, tudo aquilo que não domino, para assim, enfim, colher as sementes certas. Porque podemos até plantar as sementes certas, mas sem conhecer os frutos, as folhas, a rama, qualquer mato vira safra.

Passado esse episódio, percebi que a horta foi murchando de novo porque eu fui esquecendo de regar, fui esquecendo de podar, fui esquecendo. Coloquei nas metas 2019 refazer o ciclo! Quem sabe agora eu regue as plantas certas!

RABANADA O ANO INTEIRO

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Todo dia é dia de ser feliz!

Não sabemos ao certo. A rabanada pode ser portuguesa ou francesa. O que sabemos, é que pouco importa de onde ela veio. Desde que essa delícia apareceu por aqui, o Natal ficou mais doce, as coisas ficaram mais leves e essa tradição mundial ficou mais forte. Todo fim de ano, estamos lá, com os dedos labuzados de açúcar com canela.

Mas comer rabanada me fez pensar algumas coisas…

Me fez pensar nas coisas que só fazemos nessa época do ano…

Não sei se a gente vai se acomodando, se o tempo passa rápido demais e quando menos esperamos já é dezembro ou se vamos deixando tudo por deixar, tudo para última hora.

Vão ficando para dezembro as reuniões de família – que ora ou outra fazemos nos dias das mães, celebramos no dia dos pais; vão ficando as doações de roupas e sapatos, que podíamos ter feito o ano inteiro, desamarrotando o guarda-roupa e ajudando mais gente, por mais tempo; vão ficando as comidas servidas a mesa, porque eu acho um desperdício não servir comidas a mesa sempre em todas as refeições; vão ficando as promessas de mudança, feitas pingadas ao longo do ano, com a desculpa descabida que “do mês que vem não passa”; vão ficando as rabanadas, tão maravilhosas, mas que só comemos no natal.

E não é por falta de pão, é por falta de cuidado, por falta de vontade. Ou pelo excesso dela. Afinal de contas, quando sobra vontade, falta iniciativa.

É que eu quero mais rabanadas. Quero mais canjicas, quero mais ovos de chocolates, quero mais bacalhau com batata, deixo até que queiram panetone – já que não quero querer o sabor que ele trás.  Quero tudo que for bom de tempos em tempos, quero tudo o tempo todo!

Quero abraços, quero perdão, quero família, quero união. Quero rabanada o ano inteiro!

Porque rabanada não é só pão frito! Rabanada é mais que isso. Rabanada é tudo isso!

É doce como a vida! Ou a vida é como doce. Depende de que lado você olha.

NÃO SEI FAZER MACARRÃO

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Às vezes, o amor nos faz esquecer quem somos!

As coisas mudam muito depois que entramos em um relacionamento. Não sei se é assim para todo mundo, mas as coisas mais simples ficam sem graça se o outro não estiver lá. E não importa quanto tempo passe, aquela sensação de necessidade é tão forte que você vai ficando, vai ficando e quando vê ficou de vez naquele abraço em que a alma cabe tão bem.

Mas, às vezes, a vida muda e você vai mudando com ela…

Meu namorado está morando no Rio a cerca de um ano e nossa vida mudou muito por isso. Não nos vemos mais com tanta frequência e a nossa rotina diária foi reinventada. Nessa reinvenção, passamos a dividi-la minuciosamente pelo wpp, que é um jeito de nos deixar mais próximos apesar das distancias.

Em uma dessas conversas, enquanto eu preparava o jantar, me dei conta que não podia fazer macarrão sozinha e pedi a ele que me explicasse. Foi muito estranho pegar o pacote, olhar para ele e simplesmente esquecer como se faz. Não é que eu não soubesse, eu simplesmente esqueci a sequência, a ordem de como o macarrão deve ser feito.

Esqueci porque eu não o fazia há muito tempo. Esqueci porque de repente macarrão virou algo que eu só comia e não algo que eu preparava. Ele estava sempre pronto no trabalho, nas vezes em que quem cozinha é minha mãe ou quando ele fazia. Meu namorado, que é realmente um poço de paciência (e isso não é sarcasmo, ele é assim de verdade quando quer) me ensinou passo a passo, lembrando em detalhes.

No fim, depois de rirmos muito de tudo isso e do macarrão já estar cozinhando no fogo, ele soltou a seguinte frase “Amor, você esqueceu porque quem sempre faz o macarrão sou eu”. Percebi que o macarrão representava muito mais que um esquecimento.

É que aos poucos eu fui me acostumando a viver daquilo que o outro oferecia, a deixar de fazer porque ele fazia. Me acostumei a depender nas coisas pequenas, que podem ser grandes de acordo com a importância que damos para elas.

Assim, nesse jogo de “deixar fazer” fui esquecendo como preparar o macarrão, como passear sozinha pelo shopping, como ir a um aniversário de um amigo, como assistir filmes, como planejar o futuro, como é estar a sós consigo mesma… eu fui esquecendo. Às vezes, vamos esquecendo…

Pensei em tantas e tantas pessoas que passaram por isso de um jeito tão mais frustrante. Pessoas que quando se deparam com a morte dos seus maridos/esposas se viram simplesmente obrigadas a se reinventar, a reaprender a viver sozinha.

Mulheres que reaprenderam as coisas mínimas, como ir ao banco ou comprar uma carne para o almoço. Pensei nos homens que não sabem comprar suas próprias roupas, arrumar suas próprias refeições, cuidar sozinhos dos próprios filhos. Às vezes, vamos realmente esquecendo…

Por tudo isso, agora só quem faz o macarrão sou eu! Rs

NOSSO DEUS PARTICULAR

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Quem está criando quem?

Ontem tinha programado outro texto par o site e por mil motivos – aqueles chatos de rotina, diante de um dia completamente cheio de coisas para fazer e não refletir – acabei não postando. E, não postar me deixa muito irritada, aguça minha mente a trabalhar ainda mais, a refletir a vida com ainda mais afinco.

Assim, enquanto trabalhava no tal texto, que também falava sobre deus a partir de outra perspectiva, me peguei pensando nos deuses que criamos. Naqueles, às vezes pequenos, às vezes tão grandes que não cabem em nós. Aqueles que criamos.

Esse pensamento ficou vagando pela minha cabeça por alguns minutos e esses minutos foram suficientes para que eu entendesse que aquele texto realmente não era o texto que eu procurava. Afinal de contas, a criação de Deus estava viva em todas as partes do meu corpo à medida que estava viva na minha mente.

Deixei então que as ideias percorressem seus próprios caminhos. Pensei nos deuses banais, aqueles que reinam sem saber que são reis e, ainda assim, nos fazem escravos. Eles podem vir vestidos de comida, ou preferir a forma de manias, quem sabe ainda andar por aí disfarçados de objetos. Todos eles reinando absolutos sobre nós.

Depois, andando um pouco mais, encontrei deuses maiores, mais poderosos e, sendo mais poderosos, mais perigosos. E, sendo mais perigosos, mais atrativos. E, sendo mais atrativos, destroem aos poucos nossa alma. Geralmente vêm vestidos de álcool, de compras, de jogos, de telas. Reinam destronados ou não.

No fim da estrada, dei de cara com deuses mais divinos que o próprio Deus. Esses sim fazem doer os ossos, tremer as mãos, roer os dentes. Não aparecem do nada, não são comuns, não são fáceis. São humanos. São gente. E fazem da nossa mente um celeiro crente de que precisamos mais deles do que de nós. Vêm vestidos de líderes, de amores, de amigos, de pais. São gente. São humanos. São reis e ponto.

E mesmo depois de tanto pensar, de tanto escrever, continuo me perguntando: Quem cria quem?

ÚNICO

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Ser você é ser os outros! 

Esses dias estava conversando uma amiga sobre um dos textos que postei, “Quando o seu amor morrer”.  Foi uma conversa rápida, mas que já me rendeu muitas reflexões – já perdi as contas de quantas se transformaram em textos por aqui. Ela disse que desejava que seu namorado encontrasse outra pessoa caso ela partisse primeiro; disse também que não tinha medo sobre ele esquecer do que viveu com ela, simplesmente porque ela era única na vida dele assim como todo mundo é único na vida do outro, só não percebe.

Eu poderia acabar o texto de hoje por aqui e dar como encerrada minha missão de refletir sobre a vida que passa diante de nós sem que a percebamos. Acontece que essa frase caiu como um soco no estômago, como uma facada no peito, como um silêncio no caos.

Fui transportada as inúmeras vezes em que desejei esse “ser único”, em que ambicionei essa identidade, essa “cara”, esse jeito. Essa pessoa que seria tão única a ponto de ser “eu” e, assim, sendo eu, faria com que todos vissem quem de fato eu era, o que de fato eu pensava e como eu de fato vivia. Então, busquei esse “eu”, ah como busquei esse “eu”… Eu queria ser única para mim na mesma medida em que eu era única para o outro. Queria que minha ausência causasse uma saudade boa na vida de alguém, assim como a ausência dos meus causava em mim. Eu queria ser especial, queria ser inspiradora, queria ser lembrada.

E, nesse mar de querer, descobri que essa busca era pesada demais para quem não sabia quem era. Descobri que essa busca era na verdade infinita para aqueles que não sabiam ser com os outros. Entendi, quando parei de procurar entender, que só sou “eu “quando sou “nós”.

Foi nesse dia em que parei de buscar qualquer coisa que fosse minha, qualquer coisa que fosse atoa, para enfim buscar alguma coisa que fosse nossa, alguma coisa que fosse útil. Fui ser parte do mundo, para ele ser parte de mim.

Lembrei até de uma música, que não ouvia há muito tempo, mas que gosto tanto, da Banda Dona Joana – Invisível Eu. Ela critica essa nossa falta de identidade diante da rotina dos dias, do peso do trabalho, diante da forma bruta em que ser qualquer coisa nos tira daquilo que somos.


“Despido de qualquer vontade de saber se existo de verdade, Vejo que minha identidade são só uns números no meu RG. Previsível, imperceptível, praticamente invisível, eu.”

Sei lá, minha mente está vagando por esses pensamentos todos.                                        

Descobri que única eu já sou, sempre fui. Só não tinha percebido!

NÃO EXISTE NUDE

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Detalhes fazem toda a diferença!

Faz alguns meses, recebi de uma pessoa que admiro muito, um pedido para que eu escrevesse sobre o Batom Nude e confesso, na hora não entendi nada!

Ela me disse que o batom nude estava diretamente ligado ao racismo e isso me deixou ainda mais confusa. Corri para minha bolsinha de maquiagem, achei o tal batom nude e olhando para ele não consegui compreender a complexidade da desigualdade racial que se materializava na minha frente. Resolvi então estudar sobre o assunto.

Pesquisei bastante, visitei sites bem legais relacionados ao tema e vi reportagens que simplesmente abriram minha mente. Em todos eles os questionamentos que rondavam o assunto, tratava o nude como a cor de pele. Mas a pele de quem? Porque o nude, grande destaque da moda dos últimos tempos, favorecia apenas a pele branca.

Todos os batons, sapatos, meias calças, blusas, vestidos… todo o material nude era confeccionado para mulheres que tinham tons de pele brancos. Os tons negros, infelizmente, estavam fora do ideal mais “clean” da moda. E isso quer dizer muita coisa.

Nesse caminho de procuras, percebi que no fim a tal cor nude não existe. O nude é muito mais plural que o bege. É muito mais vivo que o rose. O nude é a demonstração do quanto nosso mundo é diverso, multicolorido e repleto de vida. Cada uma de uma cor, todas igualmente humanas.

O nude não é nude, o nude é cor de pele. Cor de várias peles. Cor de vários povos, de várias bocas, de vários pés. Cor de vários corpos. Nude é resistência.

Nessas pesquisas, descobri uma empresa que lançou sapatilhas e scarpins (um tipo de salto alto fino) de diversos tons, para diversas peles e revolucionou a moda. Revolucionou porque olhou para o lado, revolucionou porque viu o outro.

Assim, do alto do meu privilégio, com um batom nude que se encaixa a minha cor de pele, olhei bem fundo para mim mesma e pensei que essa revolução toda já poderia ter acontecido há muito tempo… Era só termos olhado os pequenos detalhes.


Um agradecimento especial a Karla Barreto, que me presenteou com esse tema e com essa descoberta! Graças a ela, o nude nunca mais será o mesmo!

QUANDO EU TIVER UM SOFÁ

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A vida não é igual para todo mundo!

Nunca tivemos sofá lá em casa. Acho que por conta do espaço, a cozinha e a sala acabaram ficando no mesmo lugar. Essa coisa de cozinha americana às vezes acaba com a gente. E como comida é algo bem relevante para nós – porque é nas refeições que nos encontramos e conversamos – a mesa foi ficando e sendo mais importante que ele. Depois vieram outros gastos e meus pais priorizaram coisas mais importantes. Afinal de contas, é melhor vestir, viver, comer, do que apenas ter um sofá.

O mais curioso é que na casa do meu namorado também não tem sofá. E eu achei o máximo a vida fazer isso com a gente. Porque convenhamos, onde eu colocaria o pretendente para esperar no primeiro dia lá em casa? Percebi que ele não se importou em ver TV na mesa da cozinha e pensei que podíamos realente ser feitos um para o outro rs.

Mas, foi conversando com uma amiga – que sim, também não tem um sofá – que comecei a imaginar o quanto ter um pode ser bom e até libertador. Estávamos em um café falando da vida e pensando no quanto as coisas seriam melhores e boas se tivéssemos um daqueles, bem grandes e fofos.

Pensamos nas pessoas que receberíamos, nos filmes assistidos em baixo da coberta, nas inúmeras almofadas que colocaríamos e no prazer de pedir para não sentarem no braço, por favor. Toda essa conversa foi divertida e trouxe algumas reflexões!

Sai do café pensando que a vida é mesmo desigual algumas vezes e o detalhe do sofá pode dizer muito sobre privilégios e condições sociais. Comecei a rir pensando no quanto eu amo ir à casa das minhas avós para sentar no sofá e dormir neles, sempre que possível. E como me ofereço prontamente a sentar, nas casas que vou e encontro um lindo sofá me convidando para experimentá-lo. Eu simplesmente amo sofás. Amo!

O fato é que até hoje não temos o tal aconchego das almofadas e no fundo, acreditamos que já nos acostumamos. Mas, isso de não ter um sofá pode ser um pouco constrangedor em algumas ocasiões, como receber visitas por exemplo. Sempre sinto algo entre engraçado e triste quando elas chegam à porta e pensam “vamos ter que sentar em cadeiras”.

Por isso, a primeira coisa que eu quero fazer quando tiver um sofá é receber os amigos, para acomodá-los confortáveis na minha casa e no meu coração.

Parece pouco, mas não vou me sentir rica tendo um carro do ano ou uma roupa de grife. Vou me sentir realmente rica quando comprar um sofá!

MACABÉA

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Pensar a vida ou viver sem pensar?

Algumas pessoas são, por natureza, encantadoras. De alguma forma, desconhecida e ilógica, elas exalam uma beleza que nem sempre é física, mas é intensa, é viva é delas. E, todo esse mistério, as tornam simplesmente inesquecíveis e amadas. É o que chamamos hoje de pessoas inspiradoras. Acontece que nem todos são assim tão seus para serem dos outros…

Depois de anos ouvindo que eu deveria ler Clarisse Lispector eu resolvi conferir isso de perto, resolvi ir além das crônicas e comecei pelo seu mais famoso livro, A hora da estrela. Confesso, a leitura é muito difícil por conta da profundidade dos sentimentos que a autora traz, das filosofias escondidas nas palavras, do mistíssimo dos detalhes, das reflexões sobre “ser”.

Precisei reler algumas páginas diversas vezes até acreditar ter compreendido por completo a mensagem. No fim, estava mergulhada, entregue, completamente submersa em Macabéa… aquela protagonista que nada tinha de especial, nada tinha de inspirador.

Ela era absurdamente comum. Era um ser que nem sabia que era alguém. Talvez sequer desconfiasse existir. Vivia sem pensar sobre viver, sem criticar a vida, sem perguntar nada ao mundo. Ela apenas era qualquer coisa que achavam que ela era.

Dias depois de terminar o livro, na casa da minha tia Leni, encontrei com Chumbreca, a cachorrinha que ela cria, e vi na pequena, Macabéa. Eu não tinha dúvidas, aquela cachorra com um nome tão banal quanto à vida que tinha, não poderia ser outra se não a própria protagonista, viva e respirando, bem do meu lado.

Ambas, existiam por existir. Chumbreca não era daqueles animais fortes, alegres, que brincam e brigam com a mesma força. Ela aceitava tudo; sempre ali, disponível; sempre ali, inexpressiva; sempre assim, Macabéa.

Parecia loucura total da minha parte comparar a pessoa criada por Clarisse com a cachorra criada pela minha Tia. Parecia uma loucura maior ainda não compará-las. O comum é tão esperado que algumas vezes simplesmente não o observamos mais. Fiquei um bom tempo olhando para Chumbreca, imaginando estar olhando para Macabea.

Tudo isso me fez pensar nas pessoas que não pensam sobre a vida, nas pessoas que nem sequer conhecem Macabéa e que nunca irão ver em Chumbreca um pouco de Clarisse. Talvez seja mais fácil não pensar sobre tudo… quem sabe seja menos dolorido. As feridas existências, que muitas vezes não são nossas, são sociais, machucam.

Uma amiga me disse que “a alienação é uma benção”. Será? Não sei. Perguntar quem se é faz parte dessas feridas todas. Pra mim, a resposta foi libertadora. Enquanto que pra muitos, nem sequer existe prisão.

Que questões Clarisse me trouxe, que questões…

No fim, quem sou eu? Talvez Macabéa depois da cartomante!

CONHEÇO PESSOAS INCRÍVEIS

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Amanhã podemos ser melhores que hoje!

É difícil construir a ideia de que pertencemos a um coletivo, a uma espécie muito maior que nossos egos. Talvez leve algum tempo até o dia em que vamos olhar para o lado e entender que a vida acontece em nós da mesma forma que acontece no outro. Mas, algumas pessoas conseguem e elas, elas são realmente inexplicáveis.

Tenho o prazer de conhecer três delas.

Acredito que sejam raras, daquelas que não se vê todo dia, não se esbarra sempre, não se esquece nunca. Eu estava em uma loja de biscoitos esses dias quando encontrei com uma. Não nos víamos há muito tempo e naquela de conversa vai, conversa vem, ela me diz que o que mais queria na vida era “conhecer o mundo e fazer o bem”.

Continuei a conversa, mas meu coração e minha mente pararam naquela frase. Pequena, tão simples, tão cheia de bondade e certezas. Ela não sabe, mas pensei horas sobre aquela conversa, pensei horas na pessoa incrível que ela estava se tornando e no quanto eu era grata por conhecê-la.

Essa conversa, que tinha tudo para ser um “oi, quanto tempo”, se transformou na porta de uma decisão: eu podia ser uma pessoa melhor! Eu podia ser mais do bem, mais da vida. Podia sair mais de mim do que antes e, olhar para o mundo com mais beleza do que as últimas vezes em que o vi. Eu podia querer o mundo também!

No meio de todos esses pensamentos, lembrei de mais duas dessas minhas pessoas. Lembrei delas e de suas frases. Um deles, me disse sem se vangloriar, no meio de um evento onde ganhávamos um prêmio, que todos os dias ele se perguntava “o que fiz para melhorar o mundo hoje?”. Ele simplesmente se perguntava isso todos os dias antes de dormir. Ele queria ajudar o mundo, todos os dias! Fiquei sem palavras.

Não tive dúvidas, ele não estava ganhando o prêmio pelo belo trabalho que fez, estava ganhando o prêmio porque havia mudado um pouco o mundo, estava ganhando o prêmio porque colocou seu coração naquilo que era bom para esse tal coletivo humano.

Outra dessas minhas pessoas, em uma conversa sobre o texto “Quando o seu amor morrer…” disse “se eu morrer primeiro, quero que ele encontre alguém que o faça feliz. Não quero que ele sofra”. Na maioria das vezes, a gente imagina que quem morre é o outro… Olhei pra vida dela, pra esse amor lindo que ela vive e, conhecendo sua história, tive certeza que ela merecia essa felicidade toda mesmo. Entendi que amor tem muito mais a ver com o fato de se ter um coração generoso do que se ter alguém para amar.

Assim, hoje, no meio de todas essas minhas pessoas incríveis – e procurando muitas outras que acredito ainda encontrar no meio do caminho – quero apenas ser melhor que ontem, e amanhã ser melhor que hoje, e agora ser mais viva do que já fui, e ser mais eu do que eu mesma posso ser.

Para assim, quem sabe, ser também boa, ser também altruísta, ser também generosa. Para assim, quem sabe, entender o mundo como uma casa só, compreender os homens como uma só família, amar a vida no mesmo peito que amo a chance de vivê-la.

Parece um longo caminho, mas sei que com calma chego lá. Afinal de contas, conheço pessoas incríveis!

TODAS AS PESSOAS FAZEM COCÔ

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Enxergamos o outro com os mesmos olhos que nos vemos!

Não consigo imaginar algumas pessoas fazendo cocô.

Não sei se é assim com todo mundo. Só sei que eu não consigo nem sequer julgar a mínima possibilidade de ver algumas pessoas fazendo qualquer coisa que as tire da posição elevada em que as coloquei. Alguns não nasceram para varrer a casa, ariar panelas e desinfetar privadas. Alguns não podem ser vistos cozinhando, lavando o carro ou arrumando a cozinha após o jantar. Cocô então, elas nunca fazem. Jamais. Em hipótese alguma!

Sim. É verdade. Não temos como fugir. Nem todos nascem para ser estrela. Eu, por exemplo. É fácil me imaginar lavando louça, com os cabelos para cima e as unhas por fazer. Mas, jamais imaginariam isso da Sandy ou de qualquer pessoa que tenham colocado ao lado dela no que diz respeito a merecimento.

Sandys são únicas, fortes e servem para incrementar a vida com seus dons e sua beleza. Nós, seres humanos comuns e simples, rotineiros e usuais, nós sim, nascemos para isso. Nascemos para fazer cocô.

Talvez, esse meu bloqueio da realidade seja fruto da beleza. Essa menina intrinsicamente malvada, que ora vem cochichar no meu ouvido que é possível tê-la, ora mostra sua fase mais cruel, deixando clara a maneira assustadora em que ela parece destinada apenas a uns poucos eleitos.

É que ela nem sempre é natural, é inerente. Na maioria das vezes a tal beleza não passa de uma coroa, colocada cuidadosamente na cabeça de algumas pessoas, enquanto outras, como cães a buscar sobras nas mesas, rodam dando voltas no mundo à procura de um padrão que em que não cabem.

E toda essa loucura sobre cocô e sobre beleza, me fez pensar nas vezes em que atribuí o melhor ao outro e não a mim. Na forma fria e dura em que me tratei em detrimento ao comportamento doce e gentil que tive com os outros, que tive com a beleza alheia e não tive com a minha, que tive com o cocô alheio e não tive com o meu.

Nesses pensamentos todos, entendi que a imagem que faço do outro está diretamente ligada à imagem que faço de mim mesma e, nesse looping incrível de ver o outro e me ver, só as diferenças podem somar mais que as semelhanças. Semelhanças essas que no fim são nativas, genuínas e humanas.

Por isso, quando eu fizer cocô de novo, vou ficar feliz em lembrar que todo mundo faz também, da mesma forma que todo mundo é bonito, mesmo que às vezes a gente não veja essa beleza toda!